Estivemos no Cine Jardins para assistir à estreia do documentário “Asfalto: 25 anos de Dead Fish” nesta segunda-feira (27/11)

Quando eu ainda era um garoto e comecei a seguir o Dead Fish, eu jamais imaginaria que um dia eles estariam na tela de um cinema. A ideia de sentar numa sala escura para assistir a algum registro da banda era algo inimaginável e inconcebível. Sua tamanha improbabilidade, no entanto, fez com que a notícia de que a banda lançaria um documentário gerasse uma antecipação gigantesca. “Como será o formato? Será que aquele ex-integrante fará um depoimento? Como será a fotografia? Eles vão conseguir narrar 25 anos em menos de duas horas? Não, isso impossível. O resultado não pode ser diferente de um fracasso!” Ah, como é bom estar errado!

Na segunda-feira (27/11) eu estive no Cine Jardins para assistir à estreia de “Asfalto: 25 anos de Dead Fish”. Junto de outras 121 pessoas, dentre elas famílias, ex-integrantes e fãs — nenhum dos membros atuais pôde comparecer à sessão de Vitória/ES —, eu me senti como se, ao invés de um filme, estivesse lá para presenciar um show. Embora as pipocas tenham ocupado o lugar das cervejas, a atmosfera era a mesma, porém com uma pequena diferença: ninguém fazia a mínima ideia do que iria acontecer. “Vamos ficar sentados ou vamos ver o filme de pé? Vai rolar um mosh lá dentro? Será que a banda vai aparecer por trás da tela no final?“. Por mais caóticas que as apresentações do Dead Fish sejam, nenhum de nós estava preparado para o que viria.

Planejado para ser uma estreia simultânea em oito capitais (das quais quatro foram canceladas por não baterem a meta de ingressos estipulada), a nossa sessão, curiosamente, aconteceu com quinze minutos de antecedência em relação às demais. O evento teve início às 21h15, não com o documentário, mas com uma mensagem — na verdade um vídeo enviado via Whatsapp. Neste, Rodrigo Lima (vocal) e Alyand Mielle (baixo) lamentam não estarem presentes na sessão para dividir o momento com a rapeize. A banda estava em outra Vitória, na Vitória da Conquista/BA, onde tocou no Festival Suíça Bahiana na noite anterior.

Olá capixabaland, Espírito Santo, Vitória. Aqui são os velhinhos caquéticos do Dead Fish falando diretamente pra vocês. A gente quer agradecer a todos vocês por estarem nesse cinema no lançamento desse documentário. Agradecer as nossas famílias, todos os ex-integrantes. […] A gente fica um pouco triste por não conseguir dividir isso com vocês, mas a gente está mandando aqui as nossas melhores vibrações. Esperamos que vocês gostem do documentário, que é muito simples, mas é parte da história de todos nós,” disse Rodrigo no vídeo.

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Foto: Reprodução/Youtube

Os sussurros alvoroçados agora preenchiam o vazio proporcionado pelo apagar das luzes. O ambiente estava repleto de uma envolvente inquietação apaixonada. Ninguém sequer piscava os olhos com medo de perder qualquer detalhe. Aquele breve momento de escuridão parecia insuportavelmente eterno e o documentário já parecia inalcançável… até ele finalmente começar! O filme teve início e veio com a mesma intensidade que a banda sobe ao palco. O som estava tão alto que até mesmo parecia que estávamos no Correria — nada mais apropriado.

Com uma narrativa rica e explosiva, assistir ao documentário foi como ver a banda tocando: uma experiência acelerada, visceral, impactante, enérgica e apaixonante. Tudo isso estava lá, em cada depoimento dos membros do grupo, em cada relato dos ex-integrantes, em cada período, em cada imagem, em cada música.

Como uma montanha-russa, o registro nos levou aos altos e baixos da trajetória do Dead Fish. Vivenciamos revelações  interessantes (Rodrigo queria ser o baterista e nem sequer foi o primeiro vocalista da banda); épocas de simplicidade juvenil (a felicidade da banda em ter alguém fazendo teste para assumir o papel de baixista); momentos triunfais (o lançamento do primeiro álbum, Sirva-se); as dificuldades profissionais (o declínio do selo do grupo, o Terceiro Mundo Produções Fonográficas); situações cômicas (a reação de felicidade da banda quando Rodrigo teve seu visto negado pelo Consulado Americano); conflitos internos (gravação do álbum Um Homem Só); e trágicas rupturas de relações (as controversas saídas de alguns integrantes, dentre eles um dos fundadores da banda, o baterista Nô).

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Foto: Reprodução/Youtube

Dentre todas as cenas, o segmento mais impactante ocorre durante a época da gravação do último disco, Vitória. Nesta, descobrimos que Alyand deixou a gravação das linhas de baixo sob responsabilidade do guitarrista Ric Mastria. O músico, num momento de extrema coragem e humildade, confessou que cogitou sair da banda devido a sérios problemas com depressão. Sempre tomando a banda como uma entidade mais importante que seus integrantes, Alyand concluiu que o grupo ficaria melhor sem ele e resolveu o deixar. Diante disto, a banda — sobretudo Rodrigo — não se abstraiu dos problemas do baixista e conseguiu dar um jeito de contornar a situação.

A parte mais bela do documentário acontece quando Alyand, visivelmente emocionado, abraça Rodrigo num camarim e diz que o ama. Uma simples, porém incrível, demonstração de amizade e companheirismo; de luta e vitória. Um momento que revela que, apesar de tudo indicar o contrário, eles ainda acreditam e eles venceram!

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Foto: Reprodução/Youtube

“Asfalto” não decepcionou em exibir violentamente os bastidores da maior banda de hardcore do país. Todos os percalços que definiram o grupo e o fizeram chegar até aqui estão lá, dentro daqueles 106 minutos. A sessão foi encerrada por palmas que soaram mais como uma família orgulhosa aplaudindo a conquista de um ente querido. Foi um momento realmente verdadeiro e emocionante.

Se você é parte da família ou um ex-integrante ou apenas um fã, não importa. A verdade é que o Dead Fish já faz parte da vida de todos nós e poder assistir à sua trajetória nos fez ainda mais próximos. Que venham mais 25 anos.

Texto: João Depoli; Foto de capa: Reprodução/Youtube.

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