Veja a entrevista que fizemos com os rapazes da Primavera Estatal no Garagem Vitória pouco antes do lançamento de seu EP homônimo

Eram quase 21h daquela fatídica quarta-feira (13/12) em que o Flamengo infelizmente empatou com o Independente na Copa Sul-Americana. Eu caminhava com pressa para dentro do Triângulo, me empurrando através daqueles inúmeros torcedores trogloditas fervorosamente embriagados que coloriam a paisagem com seu vermelho e preto — eu era o único diferente, orgulhosamente vestindo a minha camiseta marrom da Blackslug.

Cuidadosamente me esquivando da multidão, eu consegui chegar inteiro ao Garagem Vitória sem nenhum acidente que valha a pena mencionar. Minha missão era entrevistar a Primavera Estatal, que tocaria na Quarta Autoral da semana. Até então, eu só havia feito contato com o vocalista e guitarrista, Vinícius De Nadai, que tímida e incisivamente me procurou no Facebook no fim de semana anterior atrás de uma cobertura para o lançamento do EP de estreia da banda — que inclusive saiu no sábado passado (23/12). Quando cheguei lá, entretanto, não havia sinal de Vinícius ou da banda.

Sentei na calçada do lado de fora enquanto esperava. A gritaria dos torcedores que enchiam todos os bares adjacentes inevitavelmente se tornou o único som capaz de adentrar meus ouvidos. Antes que eu enlouquecesse, o quarteto felizmente logo apareceu e entrou para guardar seus instrumentos. Entretanto, logo de cara eles já tiveram uma desagradável surpresa. Por algum motivo, o Garagem não conseguiu uma bateria para a noite e eles teriam que fazer uma espécie de unplugged forçado e improvisado.

Sem delongas, Vinícius foi incumbido da tarefa de tocar as músicas sozinho de forma eletroacústica, acompanhado apenas de sua Stratocaster. Enquanto isso, Aulus Leonardelli (baixo) e Gustavo Lacerda (guitarra) esperaram apenas algumas músicas antes de correrem ao cinema para assistirem ao novo episódio de Star Wars. Eu passei a noite sentado numa mesa conversando com Tiago Vieira (bateria) enquanto Vinícius servia como nossa persistente trilha sonora, mesclando músicas da Primavera Estatal com algumas belas releituras de Cazuza, Seu Jorge e outros consagrados artistas nacionais.

Antes do grupo debandar, eu tive a chance de encurralar os quatros garotos do lado de fora do Garagem para uma rápida conversa sobre a banda, suas músicas, o até então projeto do EP de estreia e mais.

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Gustavo (esq.), Vinícius, Aulus e Tiago (topo). (Foto: JG Dallorto).

João Depoli: Quando foi que a Primavera Estatal começou?

Vinícius: Cara, a gente começou em meados de 2015, quando eu terminei uma banda com esse baixista que está agora, o Aulus. Eu queria na verdade retomar um projeto que eu já tinha, que era das minhas músicas autorais que eu cantava — nessa banda que terminou eu era só o guitarrista. Eu resolvi retomar esse projeto, porque eu achei que fosse um negócio mais a minha cara, que eu queria fazer mesmo pra minha vida, sacou?

No canal da banda no YouTube, eu vi que vocês começaram a lançar músicas em 2015. Isso mostra que as canções vieram tão logo vocês formaram a banda.

Vinícius: Sim. A gente já chegou, juntou o pessoal e gravamos em casa — na casa do antigo guitarrista — e já lançamos, porque era pressa, né? Vontade de mostrar logo.

Houve algum agrupamento e lançamento oficial dessas músicas além do YouTube, como num disco ou EP?

Vinícius: Físico a gente até fez. A gente montou um CD artesanalmente, fizemos a capinha e tal.

Aulus: Fizemos umas duzentas [cópias] e demos para os amigos mesmo. [Também] levamos bastante em bares. Tipo, a gente tentou colocar uma artezinha maneira justamente para convencer melhor os donos dos estabelecimentos. […] Um marketing melhorzinho para eles poderem chamar a gente e dar mais credibilidade. Mas isso não funcionou direito. Talvez faltava alguma coisa ainda. Aí a gente [começou] a estudar e ver o que precisava. [Estudamos] marketing empresarial, música e produção para a gente evoluir um pouco a cada dia e ter aquilo que precisasse para poder ganhar tanto confiança quanto credibilidade e público.

E de onde vieram as influências que vocês usaram na composição destas músicas?

Vinícius: Para mim, pelo menos, [veio de] tudo o que eu escuto. O pessoal me pergunta […] o que a gente tem de influência, mas não dá para dizer, porque é muita coisa, sabe? Toda a música que eu escuto vem um pouco.

Tiago: Não tem um estilo específico. É a junção de vários estilos diferentes que cada um traz da [sua própria] bagagem.

Aulus: Às vezes, mesmo o que a gente mais gosta a gente acaba não tirando influência e talvez dê preferência para alguma coisa que a gente gosta, mas gosta mais em conjunto, para poder a química funcionar mais. O Vinícius gosta bastante de música brasileira, samba, e embora a gente goste também, não é uma coisa que você vai encontrar muito [nas músicas]. O Tiago gosta mais de metal, só que também não é uma coisa que a gente coloca. Eu gosto muito de rock progressivo e provavelmente a gente nunca vai colocar. É mais uma junção daquilo que a gente ouve em conjunto mesmo.

Em todo esse caos de vários estilos e várias bandas diferentes, como se dá o seu processo de composição?

Vinícius: Geralmente… atualmente… até então… Eu faço em casa a composição — letra e harmonia — e passo para eles. Depois a gente vai criando como banda.

Tiago: O arranjo a gente cria como banda, mas a composição da letra e da música vêm do Vinícius.

Aulus: Como nós sempre produzimos as músicas em casa, no home studio, nós vimos a necessidade de saber mais sobre produção musical. Então, ao mesmo tempo que o Vinícius ele faz a letra, a harmonia e a melodia, assim, […] cada um não se limita apenas à sua parte. […] Realmente é um conjunto bem fluido e homogêneo das coisas. A gente felizmente gosta muito de estudar produção musical. Então, à medida que passa o tempo, cada vez mais [vão aparecendo] aqueles aspectos que você vê na produção profissional: arranjos secundários, vários overdubs de linhas principais e aquilo que talvez você só encontra — não querendo superiorizar a gente — numa música mais bem produzida. [Tentamos] estudar o máximo possível para saber o que eles fazem para a música parecer ser tão “superior às outras” — entre aspas, porque gosto não se discute — e trazer para a gente.

Dois meses atrás vocês disponibilizaram o webclip da música “Saudade”. É interessante comparar essa música às demais que vocês têm no YouTube, porque dá para ver um claro amadurecimento tanto estético e visual quanto musical. O que essa música significou para vocês?

Vinícius: Realmente é um amadurecimento total, porque aquelas músicas que a gente tem lá no YouTube são antigas. Elas são de 2015, com exceção de “A Fuga”, que foi desse ano. Então tem um amadurecimento aí de um ano e meio, sacou?

Aulus: Embora pareça que o clipe foi um amadurecimento — e foi —, a gente tem que saber que a gente ainda está num nível amador. A gente não pode ficar confortável. [Temos] que saber o que a gente tem. Está melhorando, mas ainda falta muito para ficar do jeito que tem que ficar mesmo, né? Foi um webclip legalzinho, tentamos utilizar a criatividade para compensar os recursos e, assim, para produzi-lo, a gente estudou um pouco e a gente se preparou. A intenção é superar alguns trabalhos anteriores e servir meio que de base para cada coisa que vier depois. [Que seja] como uma escada — a vida é uma escada!

E como foi gravar esse vídeo?

Vinícius: Cara, a gente fez na casa do meu avô, na Ilha do Boi, e foi, tipo assim, totalmente independente. A namorada do Tiago [Aline Lopes] que gravou, porque ela é formada em Cinema.

Gustavo: A gente chamou vários amigos para gravar. Um amigo meu [João Guiherme Dallorto] ajudou lá na filmagem junto da namorada do Tiago.

Tiago: A gente tem uns amigos que falaram que foi diferente e isso até motivou a gente a fazer clipes melhores.

Aulus: Antes desse, a gente produziu um para “A Fuga”. A gente lançou um webclip e todas as críticas que vieram a gente consultou para colocar em “Saudade”. Agora, todas as críticas que vierem, a gente vai colocar nesse próximo, justamente porque, por mais que você acredite em propaganda e acredite em marketing, eu acho que o melhor meio de divulgação é a qualidade! Essa música provou [isso] para a gente, não em visualizações, mas em proporção de divulgação. Tipo, há quanto tempo ela foi lançada e qual a proporção de visualizações dela em comparação às visualizações das outras músicas? [Isso] provou que […] o avanço de qualidade que a gente teve refletiu diretamente na visibilidade. Eu não estou preocupado com números, não é isso! Mas é uma referência clara.

A música é o que importa, né? Se você tiver uma banda com pessoas estilosas, um monte de gente bonita, instrumentos caros, mas que as músicas sejam ruins, vocês estão essencialmente fodidos!

Aulus: Exatamente! Quando você fala de imagem e de clipe, a gente não está falando isso só para vender, mas é porque isso tudo entra no conjunto da arte — na harmonia da arte. Então, uma coisa que eu fico triste às vezes […] é que alguns artistas acabam reclamando muito quando veem uma música boa [na qual] o cara começa a se produzir muito. Chamam ele de vendido e de um monte de coisa, em vez de pensar que a qualidade que ele está adquirindo faz o conjunto da arte ser melhor, entendeu?

E falando no conjunto da arte, em evoluir e mais, vocês estão para lançar um novo registro ainda neste ano, no dia 23 de Dezembro. Vocês continuam trabalhando nesse esquema de gravar em casa e fazer tudo por vocês mesmos?

Vinícius: Isso, só que de uma forma bem mais profissional agora. A gente grava tudo no estúdio [do Tiago]. Já tem um amadurecimento bem melhor. […] Ficou bem melhor que as de 2015.

Foi um esforço só da banda ou vocês trabalharam com algum produtor?

Vinícius: Só da banda. Na verdade esse EP vai ser uma regravação das [músicas] que estão no YouTube. São aquelas.

Tiago: Com a exceção de “Telescópio”, que no YouTube é acústico. Ela agora virá com banda completa.

Vinícius: E a gente está propondo para esse EP uma visibilidade bem maior, né?

Vocês planejam fazer um lançamento apenas digital ou será físico também?

Vinícius: Digital e físico.

Com algum selo por trás?

Vinícius: Tudo independente!

Aulus: Não desmerecendo o trabalho de produtores musicais e empresários brasileiros, porque eles são muito competentes na maioria das vezes, mas as bandas buscam muito conseguir um contrato, né? E eu acho que elas estão certas. Mas, só porque elas veem um grande produtor ou um grande empresário, não significa que elas mesmas não podem ser tão boas e criativas quanto eles, entendeu? Não estou falando de ser aquele indie — pode até ser aquele indie, mas com a visão empresarial e todas as criações num nível tão alto quando o deles. Você vê isso muito no Iron Maiden, né? O Steve Harris [baixista] era um cara que trabalhava como jogador de futebol e arquiteto e aí ele saiu desses empregos para fazer a banda. Tudo o que compõe o Iron Maiden, desde a música até o mínimo enfeite de palco, passa por ele, entendeu? Passa pela visão dele e passa pelo julgamento dele. Tudo o que está lá é planejado por ele. Então, realmente é um império que ele formou graças à persistência e à visão.

Como vocês disseram que as músicas que vão compor esse EP são aquelas que estão no YouTube, as pessoas podem se perguntar sobre o porquê de serem aquelas músicas e o porquê de vocês terem esperado tanto tempo para lança-las.

Aulus: A gente compôs várias músicas, mas ao longo desse tempo, todas elas passaram por várias gravações. Tem músicas que a gente lançou em 2015 e vai lançar agora no EP que não foram apenas duas gravações que elas tiveram, elas tiveram pelo menos cinco, entendeu? Mudou instrumento, mudou arranjo, mudou produção. Não é tirando o máximo que ela podia, mas tirando o máximo que a gente podia para dar o que ela merecia.

E este EP já tem um nome?

Aulus: Homônimo.

Vinícius: Primavera Estatal.

Por que essa fixação na primavera?

Aulus: Vamos para a polêmica?

Vinícius: Na verdade, eu criei o nome antes do significado, sacou? Eu estava ouvindo Los Hermanos, “Primavera”, aí eu pensei, “tem que ter um nome assim, Primavera Não Sei o Quê”. Aí eu falei “Estatal” e soou bem, e aí depois eu criei o significado, que é uma crítica ao poder do Estado, que no caso controla até a natureza.

Gustavo: A gente não é comunista!

Aulus: A gente viu que [o nome] poderia gerar alguma polêmica e um afastamento, mas a gente decidiu [mantê-lo], porque se uma pessoa fosse gostar do nosso som, ela ia gostar de qualquer jeito e não ia ligar para essas coisas. Se ela quisesse saber de onde veio essa ideia, de onde veio o nome, ela ia primeiro procurar para depois julgar.

Tiago: As músicas não têm crítica com relação a isso. Elas são mais músicas da vida e do cotidiano.

Vinícius: Mas sempre tem uma criticazinha lá no fundo.

Na semana passada vocês tocaram aqui no Garagem Vitória, só que apresentando músicas de outros artistas, mesmo que primordialmente a proposta da Primavera Estatal seja a de uma banda autoral, como vocês mencionaram. Embora vocês ainda façam alguns shows covers, a ideia é manter ou se desvencilhar disto?

Aulus: Os covers nos dão recursos para poder investir no autoral. Tipo assim, não é uma crítica, mas uma observação aos donos de estabelecimento: eles podem muito bem sair um pouco da zona de conforto e parar de chamar aquela mesma banda — claro, continuar chamando ela, não quero tirar o trabalho de nenhuma banda, claro que não —, mas eles também podem chamar vários artistas que sejam autorais, não para empurrar na goela do cliente uma música nova, mas sim porque, se esse artista der certo, vai ser bom para aquele estabelecimento ser quem deu a chance para o cara dar certo. Eles precisam ter essa visão. […] Primeiro, porque ele vai ser aquele bar que todo mundo vai ter no coração que dá chance para o autoral. Depois, se algum cara der certo — e se esse cara for humilde —, ele vai se lembrar com respeito daquela chance que ele teve. Eu acho isso importante. Não é por piedade ou por dó, não — é bom para os negócios do cara dar chance para a música autoral!

Além do disco que vocês estão para lançar neste fim do ano, quais são os outros planos da banda?

Vinícius: Muitos shows! A gente está tentando conseguir com a Prefeitura de Vila Velha de tocar quatro finais de semana direto lá na Praia da Costa, no Arco da Praia, no calçadão. E mais shows por aqui também, embora não tenha nada marcado ainda.

Texto: João Depoli; Foto de capa: JG Dallorto.

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