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Is it my imagination or have I finally found something worth living for?

A luz do sol já queimava o meu rosto enquanto o pouco de atividade cerebral que me restara da noite anterior sacrificava os neurônios remanescentes numa tentativa desesperada de me fazer funcionar. Sair da cama já era quase que uma provação hercúlea, dado o peso da ressaca que já havia se apoderado do meu corpo. Ainda assim, eu me atrevo a dizer que a manhã seguinte de qualquer show de rock não poderia ser nada diferente disto: um singelo lembrete de que a música é brutal, selvagem e está desesperadamente atrás de sua total veneração. Em troca, ela não tem nada a nos oferecer. Ela simplesmente não dá a mínima. Somos os seus meros escravos e para sempre seremos — com o maior prazer.

Não sei se isso foi o resultado exclusivo da festa de sexta-feira (05), a Inferno, ou se foi o acúmulo de todos os outros ininterruptos eventos das últimas semanas. Aniversário do Mozine com Roberto Carlos cover no Liverpub Vitória, Escola de Rock e Rodrigo Lima (Dead Fish) como DJ na Bolt (obrigado pelo Oasis e Placebo, foram, particularmente, duas excelentes surpresas), Réveillon, a volta de Arquivo X (sim, isso também é motivo de comemorações pesadas), Quintal Selvagem na Prainha e finalmente Whatever Happened to Baby Jane e Desgraça no Stone. Se houveram dias normais entre tudo isso, eu não me lembro. Em todo o caso, este último evento foi algo à parte.

O Stone Pub é um dos lugares em que eu misteriosamente mais me divirto em Vitória. Talvez seja por isso que eu estivesse inconscientemente esperando pelo momento em que as meninas da Whatever Happened to Baby Jane fossem tocar de novo por lá. Desde que eu as entrevistei, infelizmente elas não fizeram muitos outros shows, mas eu tinha certeza que uma noite no Stone com elas seria memorável, e eu estava certo — obrigado pelo convite, Tuzzão!

Após finalizar Love is a Mix Tape, o primeiro livro de Rob Sheffield, um dos editores da Rolling Stone americana, passei o resto da tarde tomando umas Heinekens enquanto me questionava em total agonia e desesperança o porquê da galera da Dominatrix não ter lançado mais nada depois do derradeiro Quem Defende Pra Calar, de 2009. Toda essa lamentação acontecia ao som de um loop infinito da última música do EP, a contagiante “Esquece a Volta”, que inclusive conta com a participação da incrível Andrea Martins (vocalista do Canto dos Malditos na Terra do Nunca) — que na época eu acredito que era até casada com a líder da Dominatrix, Elisa Gargiulo.

Sem uma reposta para os grandes questionamentos da vida, encontrei minha carona e logo já estava no Stone Pub. Por lá, depois de outras Heinekens e umas doses de vodca que pareciam estar involuntariamente se multiplicando, me peguei na área de fumantes conversando com duas Luanas, sendo uma delas a Luana Soares, baixista da The Truckers. Entre um papo e outro, lembro que desfrutamos de algumas saudosas memórias dos tempos em que o Entre Amigos 2, no final da orla de Itaparica, era um dos lugares mais preciosos e relevantes da vida de quase todo mundo que tinha uma banda ou curtia música alternativa no Espírito Santo.

Num minuto eu estava nessa conversa e logo em seguida eu já não estava. Quando notei, eu e Lorena Bonna, vocalista e guitarrista da Whatever Happened to Baby Jane, falávamos sobre anéis. Como essas coisas acontecem? Eu não faço ideia, mas uma boa noite é feita destes pequenos detalhes — seja lá o que eles realmente signifiquem. Uma ex-namorada uma vez me disse que esses anéis eram horríveis… Talvez ela estivesse certa, mas ainda bem que eu não lhe dei ouvidos!

Naquele ponto, meu cérebro já demonstrava vários sinais de que há muito estava sobrecarregado. Creio que já havíamos entrado na madrugada de sábado e a casa já estava bem cheia — e com a presença de alguns convidados ilustres, como o próprio Mozine e Rodrigo Lima. O show das meninas finalmente começou e foi tudo o que eu precisava. Eu não vi a banda L7 no Hollywood Rock em 1993, mas posso dizer que vi a Baby Jane no Stone Pub em 2018. A noite foi alucinante! Uma boa dose de um show riot grrrl é sempre bem-vinda. O mais interessante é que elas parecem estar se superando a cada apresentação. As músicas são fervorosas, gritantes, rápidas, divertidas, brutais, contemporâneas e chegam a pingar atitude, daquele tipo mais intimidador e apaixonante. De todas elas, eu sempre me derreto quando elas tocam “Deixa Ela Em Paz” — pena que isso significa que o show chegou ao fim!

Quando me dei conta, a banda Desgraça já estava no palco, escondida atrás de suas máscaras e sua incomum formação: vocal, baixo e bateria. Confesso que não fazia ideia de sua existência antes do anúncio deste show, mas fiquei bastante intrigado desde que tomei conhecimento. Na época, escutei e assisti atentamente ao seu álbum visual, Ladrão, lançado ainda no ano passado. Simplesmente genial. Eu mal podia esperar para vê-los. Depois de ter feito este dever de casa, eu achava que estava preparado… Só que não!

O show foi uma experiência e tanto. Me pegou completamente desprevenido. Eu não sabia que se podia transmitir tanta fúria num palco sem uma guitarra distorcida. A pressão dos diferentes ritmos emitidos pela bateria do mineiro Vitor Brauer era esmagadora; o baixo de Felipe Soares num instante tomou posse de meus batimentos; e a força da crítica social bravejada pelos nervosos vocais do alagoano Rodolfo Lima era imperiosamente aniquiladora. A apresentação foi tão revigorante quanto violenta e se o Stone Pub resolver fazer novas edições desta festa, sem dúvidas terá que procurar um nome mais adequado, porque depois desta noite, Inferno já se tornou um eufemismo!

Não me lembro de muito do que aconteceu depois daquilo, afinal, como eu poderia? Minha última lembrança daquela noite foi de sair do uber em plena Terceira Ponte e caminhar por um tempo de volta pra casa, enquanto meus amigos famintos seguiam rumo ao horizonte em busca de algum podrão canela verde. A noite havia sido melhor do que eu imaginava, embora minha cabeça já não conseguisse mais processar muita coisa. Apesar disto, algo ainda não a deixava se desligar por completo: aquele refrão chiclete da Dominatrix, que continuava a se repetir em minha mente durante toda aquela caminhada. Que música! Que noite!

Texto e foto de capa: João Depoli.

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