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Antes de fixar residência em sua vizinhança do espelho, o jovem linharense Cainã Morellato deu seus primeiros passos no universo da música autoral, arriscando-se justo numa carreira solo. Pouco depois, em 2015, Morellato lançou seu autorretrato, isto é, o álbum de estreia Morador do Mato, um sólido conjunto de quinze faixas que enaltecem sua criação no interior de Linhares. “Nasci lá no mato, andei pelo asfalto, num caleidoscópio de cheiros e tons, minha caminhada tem destino certo. Se o fim está perto, ainda não sei,” como canta em um de suas canções.

A poética diferença entre o mato e o asfalto, no entanto, logo se fez mais real do que o artista gostaria e este conflito entre Linhares e Vitória culminou na dissolução de sua antiga banda de apoio, que até então era formada por seu irmão Dan Morellato nas guitarras, Heviny Moura no violino e Maressa Machado na bateria. Sem revelar um pingo de desespero aparente, Cainã e seu irmão iniciaram uma busca por novos músicos e encontraram sua nova formação agora com Antonio Mathias no baixo e Hugo Rogério na bateria. O resultado foi tão positivo que a sintonia do grupo já não condizia mais com a perspectiva de artista solo e banda de apoio. Tamanho foi o entrosamento que em Abril de 2017 o quarteto logo assumiu uma identidade de banda e não houve quem o pudesse parar. Foram shows, séries online, concursos e até mesmo uma participação no Rock in Rio!

Apesar disso, a maior conquista da banda certamente foi o lançamento do Último Disco do Ano, que saiu às 23h59 do dia 31 de Dezembro — enquanto travávamos nossos últimos conflitos com os demônios de 2017. Acordar em 2018 com a notícia deste álbum definitivamente foi uma das melhores maneiras de se começar o ano novo. O disco conta com seis canções que não estão ali por acaso. Elas cumprem (e muito bem) o seu papel de refletir o atual estado de espírito de quem as compôs. Enquanto Morador do Mato fala sobre criação e laços interioranos, o novo álbum vai além. Aborda a desorientação que veio com a dissolução do que parecia ser uma carreira solo brilhante e os outros conflitos oriundos dessa nova caminhada.

Embora seja o último, este disco sempre soará como o primeiro do ano, e poder conversar com a banda a respeito só deixou este presente de réveillon ainda melhor. Confira abaixo a entrevista que fiz com estes exímios músicos e doces seres humanos sobre a jornada que os levou ao seu Último Disco do Ano.

João Depoli: Vocês se formaram como banda há pouco tempo. Começou como um projeto solo do Cainã, mas os músicos se debandaram e vocês se juntaram com essa nova formação e logo adotaram o nome Vizinhança do Espelho. Como foi a construção dessa nova dinâmica de banda?

Cainã: Quando eu comecei a fazer o Morador do Mato, eu sempre quis ter uma banda assim. Eu coloquei meu nome no projeto, porque eu tinha começado a gravar e eu não tinha ainda um horizonte. Mas a minha intenção sempre foi ter uma banda fixa e da gente tocar junto e tudo. Aí na época rolou o disco e as meninas [Heviny Moura e Maressa Machado] saíram e os meninos entraram para continuar aquilo, só que aí foi essa entrada — a colisão de energias e tudo que rolou ali — que culminou no nome da banda. Eu aproveitei uma coisa que eu já queria muito, e a gente decidiu seguir como banda. Foi um processo super natural, super retilíneo. Não foi nada planejado. Foi tudo sendo guiado pela intenção e eu acho que é isso que é precioso pra gente. Quando a gente está junto, eu sinto que é o resultado de uma parada sincera. Não é um negócio calculado, é uma coisa mais orgânica.

Deu tão certo que em pouco tempo vocês apareceram em algumas séries online (como o 4º Studio Apresenta, o Na Garagem da TV Faesa e o Estúdio Sala de Estar), foram parar no Rock in Rio e lançaram um disco. Tudo isso em apenas um ano. Como vocês resumiriam 2017 na carreira de vocês?

Cainã: Foi um ano tão bonito que acabou com esse disco. Isso foi um resultado, uma conclusão.

Hugo: É o famoso cinquenta em cinco, né? Cinquenta anos em cinco.

Cainã: Verdade.

Teve algum momento mais especial e que se destacou para vocês nessa jornada de 2017?

Hugo: Eu acho que o Rock In Rio. Não pelo tamanho da coisa, mas pelas lições que a gente tirou. A gente foi pra lá com uma cabeça e voltou totalmente desconstruído. Ao invés de voltar mais relaxado pensando que iam surgir coisas pra gente, a gente voltou com mais vontade de trabalhar. A gente sempre sentou, colocou tudo no papel e trabalhou. Acho que o pico de 2017 foi essa penca de lições que a gente trouxe de lá.

Como vocês disseram, lançar o disco foi como o fechamento de um ciclo. Seria essa a razão de vocês terem optado pelo “Último Disco do Ano” ao invés do “Primeiro Disco do Ano”?

Cainã: Olha que legal! Isso é muito simbólico, cara! Legal, legal! Eu não tinha pensando nisso. É verdade, tem toda razão. A gente decidiu gravar o disco e era, sei lá, dia 13, 14 de Dezembro, e eram músicas que já estavam com a gente há um tempo e tal, e como foi um ano tão intenso, como você disse, a gente sentiu… Cara, foi uma coisa que aconteceu. “Velho, a gente precisa gravar essas músicas. Vamos gravar? Rola? Vamos tentar. Se não der, ok, paciência. Mas vamos fazer de tudo pra dar!” E foi o que aconteceu. Eu terminei de mixá-lo no dia 31 [de Dezembro], nos últimos minutos. Tanto que eu fiz questão de colocar lá, “enviado às 23h59”, porque foi realmente o que aconteceu. Foi no finalzinho [do ano] e eu falei, “beleza, conseguimos acabar em 2017. Que ano!” E a virada eu passei lá, olhando pro computador.

Eu imaginei que tivesse sido algo deliberado, que vocês tivessem conversado e chegado num consenso. Pelo visto foi algo completamente natural.

Mathias: Eu pensei, “caramba, vai ser o último disco do ano, né?

Cainã:Vamos colocar esse nome? Vamos!” Foi muito natural. As coisas vão fluindo e a gente tenta ao máximo estar bem para poder ouvir, pois quando você está preocupado com a opinião alheia ou desequilibrado emocionalmente ou energeticamente, você acaba perdendo a sintonia com esse tipo de coisa — de saber o que você tem que fazer, de saber o seu caminho. E como o Hugo disse, o Rock in Rio serviu pra isso, para colocar a cabeça no lugar e saber o porquê da gente gostar disso e onde a gente está. É uma lição que bateu muito forte e a gente ainda nem terminou de entender ela direito.

E pra você que gravou o primeiro disco como artista solo e este como banda, qual foi a maior diferença entre os dois trabalhos?

Cainã: Muito legal, muito interessante. O processo de fabricação do disco, da gravação, não mudou muita coisa. A gente usou os mesmos equipamentos do Morador do Mato, gravamos no mesmo lugar, mas foi um disco que, no meu coração, soa muito melhor. É até simbólico isso, você saber aceitar a sua condição. Aceitar o que você é e tentar melhorar cada vez mais isso, sem se apegar, tipo, “eu preciso de um estúdio maior para poder fazer isso e tal.” É um reflexo do que rolou no ano. Então, pra mim, é muito mais legal. Muito diferente, porque são outras energias, outras pessoas. Morador do Mato eu gravei a maior parte sozinho, mas o meu irmão estava comigo no processo de produção — várias das músicas não seriam as mesmas se não fosse por ele. As meninas também, a Maressa e a Heviny, participaram ativamente do processo. Mas o [Último Disco do Ano] tem mais dessa pluralidade — várias pessoas colocando a sua energia da forma que elas acham, e até esse conflito de tentar chegar num equilíbrio e às vezes a gente chega no equilíbrio sem combinar. Eu acho que esse trabalho tem muito a ver com a sintonia fina, de você estar bem com os seus amigos, de você conhecê-los, de se esclarecer e de, no fim das contas, tentar colocar tudo isso em música.

Dessa vez a composição das músicas foi feita em conjunto?

Cainã: Sim, esse é o primeiro disco que tem músicas dos quatro. Tanto a parte musical quanto a parte de letras. “Mirante”, por exemplo, é uma música que nós quatro escrevemos.

Tem alguma música da qual vocês mais se orgulham?

Cainã: A gente nunca conversou sobre isso. Eu gosto muito de todas, mas eu acho que por “Mirante” ser a primeira música de nós quatro, e a forma como ela veio, acho que é uma música que mora no meu coração. A sonoridade dela me agrada muito. É difícil você às vezes pensar numa coisa e conseguir gravar. Ela sempre soa diferente. Mas essa pra mim está 101% como estava na minha cabeça! E vocês?

Hugo: Você falou, então tá falado! É a minha também, bicho.

Essa música acaba por marcar uma transição. Foi quando todos vocês compuseram juntos e dali em diante isso acabou marcando uma nova fase. Acho que involuntariamente ela já era a favorita antes mesmo de vocês notarem que existiam outras!

Dan: Não teve jeito!

Na quarta música, “Bem”, vocês encaixaram uma bela participação do André Prando. Como essa parceria aconteceu?

Cainã: Rapaz, essa música já existia e… Sabe quando você tem 98% pronto? Faltavam aqueles 2% e eu tenho um amigão de Vitória, o Rodrigo “Digão” Pessotti, que conhece o André das antigas. Ele tinha uma banda chamada Mendigos Cientistas, e eu e Dan tínhamos uma banda cover de Red Hot e a gente já tinha se topado por aí, então já tinha essa proximidade meio que de fã. Daí, quando eu fiz a música, um bom tempo depois eu pensei, “porra, vou gravar com o Prando.” E o Digão produz pro Elefante Sessions, e ele já tinha gravado com o Prando. Aí ele falou, “cara, eu conheço o Prando e ele mora a uns cem metros de mim. Vamos falar com ele, aí se ele quiser, se ele topar…” Aí eu abordei ele e ele já tinha ouvido Morador do Mato. “Velho, o que você acha? Vamos gravar umas músicas? Eu tenho uma música aqui, o que você acha?” E aí, lá no apartamento dele, a gente fechou aqueles 2% da música que estavam faltando, que eram uma pausazinha, a melodia que ele coloca e a forma como ele entra cantando — o negócio dos 23 e dos 26 anos, que foi uma coisa que ele colocou. Então tem uma pincelada que eu acho muito massa. É uma coisa que mudou completamente do que eu tinha, que era uma coisa muito pessoal, e virou uma conversa. Agora a gente ouve ela no disco e [escuta] exatamente esse resultado de conversa e de troca de energia. É muito bonito.

Deixa eu perguntar sobre a arte do álbum. O que significa aquela capa?

Cainã: Vou te perguntar então, o que que você viu lá?

Eu poderia filosofar, mas eu vi um círculo ou um fosso, eu não sabia se aquilo era um fundo ou se era o topo. Eu fiquei um pouco perdido! A pergunta veio por causa disso. Eu não entendi exatamente se eu estava olhando para cima ou se estava olhando para baixo.

Cainã: Interessante. É um disco que aborda a desorientação. Ele abre com a música “Com a Cabeça Entre o Passado e o Futuro”, um conflito de você não saber onde sua cabeça está e você fica sofrendo por antecedência e tal. [A capa] é um espelho pequeno e é uma foto dele no chão, refletindo o céu.

Então eu não estava completamente errado! De uma certa forma, você precisa olhar para baixo antes de enxergar o que está acima de você.

Cainã: Olha! Bonito, cara. Tá vendo? Legal, tem tudo a ver. Agora mais ainda eu acho que tem tudo a ver com o que o disco reflete!

Me parece que vocês se divertem muito compondo e trabalhando em suas músicas. Ao mesmo tempo, o show de vocês também também reflete esse mesmo cuidado e entusiasmo. No contexto dessa dualidade de estúdio e ao vivo, existe algum lado que vocês preferem?  

Cainã: Difícil.

Mathias: Acho que cada um tem o seu ponto especial. Entrar no estúdio é entrar em contato consigo mesmo e tentar encontrar uma maneira de se colocar na música. [Ao vivo] é mais o contato com o público. É você expor aquilo que você estava pensando para as pessoas verem como elas se identificam com aquilo. Cada um dos lados tem uma importância.

Hugo: É difícil você gostar mais de um do que do outro, porque são vibes completamente diferentes. No estúdio você passa raiva, você se frustra. Você está ali sozinho, vendo seus erros na palma da mão e você repete e repete. E não é ruim, porque você se autoconhece e você evolui. Já no show, é a liberação daquilo que você já aprendeu na gravação. É a hora de você explodir. São vibes completamente diferentes e as duas se complementam.

E eu acho que vocês explodem muito bem. Eu estava ali, olhando, curtindo, mas eu também estava analisando a performance. Parece que cada um está ali no seu próprio mundo, mas ao mesmo tempo é como se vocês estivessem de mãos dadas, porque vocês seguram as músicas mesmo com cada um fazendo coisas completamente diferentes. Não vi nenhuma daquelas olhadinhas de canto de ombro para denunciar erros e tal, foi tudo completamente fluido. Com esse profissionalismo e tantas conquistas numa trajetória relativamente curta, o que vocês ainda almejam para o grupo?

Cainã: Eu acho que essa pergunta também tem dois lados, assim como a anterior. Tem o lado profissional da gente querer viver disso e enxergar isso como meta profissional, de ganhar dinheiro e se sustentar; E também tem o lado emocional, de, porra, é o que eu amo fazer! É o que eu sei fazer e o que eu vou fazer. Então, eu acho que, unindo essas duas coisas, o nosso objetivo é cada vez mais conseguir se sustentar disso e se conhecer através disso para que a nossa arte tenha significado. Que a nossa arte gere reflexão e que gere alguma mudança no meio, no mundo e nas pessoas, porque é um ciclo. As pessoas se identificam e a gente vai passando por coisas, a gente vai experimentando coisas, e vai escrevendo sobre essas coisas e aí alguém que passou por aquilo ouve, do outro canto do país. Eu acho que é muito isso: conseguir chegar num momento em que a gente se sustente da nossa arte, mas não só monetariamente. Se sustente de se conhecer e sermos pessoas melhores e de gerarmos isso também para outras pessoas.

E quais os planos para 2018?

Cainã: Tocar, fazer mais músicas, conversar com outros artistas, com outras pessoas, alcançar novos públicos. Acho que os planos imediatos são esses. Fazer mais do que a gente ama. É colocar toda essa energia aí que está nascendo neste novo ano numa caixinha e ver para onde vai. Ver o que fazer e como a gente vai gastar essa energia. Dividindo entre shows, clipes, viagens, novas gravações e novas ideias.

Texto: João Depoli; Foto de capa: Divulgação/Facebook.