Dia Internacional da Mulher: Música e feminismo na visão delas

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Foto de capa: Victória Dessaune, Tati W. Franklin, Lilia Oliveira, Tati Hauer, Hannah Carvalho, João Depoli e YouTube.
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Hoje celebra-se o Dia Internacional da Mulher e por aqui não poderia ser diferente. Conversamos com oito incríveis artistas que estão à frente de seus projetos musicais e deixamos suas respostas lado a lado para evidenciarmos que, embora sonoridades e estilos de vida sejam distintos, a batalha é a mesma.

Confira abaixo o que disseram Francesca Pera (do duo Transe), Joana Bentes (artista solo), Lara Lorenzoni (vocalista e guitarrista da banda The Truckers), Gabriela Brown (artista solo), Mary Jane (uma das cabeças do grupo de rap Melanina MCs), Gabriela Deptulski (mente pensante por trás do projeto My Magical Glowing Lens), Karen Maria (vocalista do grupo Lady Lauren) e Lorena Bonna (voz e guitarra na banda Whatever Happened to Baby Jane) sobre a temática “música e feminismo”.

1) Como a música entrou em sua vida?

Francesca Pera (Transe): Minha mãe era evangélica e foi na igreja que tive minhas primeiras experiências com música, os evangélicos são bem ligados a música. Foi ali também que eu aprendi a cantar, a catarse em ouvir música, chorar, me emocionar, isso foi muito importante para formação da minha sensibilidade e entrega. Na adolescência já fui começando a descobrir meu gosto musical e sentia vontade de me aproximar dela ainda mais, sempre sonhava em cantar a la Maria Bethânia. Iniciei minha carreira como compositora, diretora artística e produtora participando do grupo Pó de Ser Emoriô, depois comecei a compor também com outros músicos. Agora, no Transe, estou assumindo minhas composições no palco.

Joana Bentes: Acho que eu que nasci através dela. Meus pais sempre me expuseram à música, e sempre me senti tocada por ela. Comecei a tocar violão aos 9 anos de idade e a compor a partir dos 14. Desde então tive bandas e toquei assumindo diferentes posições: guitarra, bateria, baixo, vocal. Comecei a investir profissionalmente já depois de formada em artes plásticas, em 2014.

Lara Lorenzoni (The Truckers): Meu pai sempre foi fissurado em música, principalmente rock’n’roll. Ele já tocou em festival quando era novo, já montou equipe de som. Sempre botava pra gente ouvir Led Zeppelin, Bon Jovi, AC/DC, Black Sabbath, Guns’n’Roses, Raul Seixas… E, pelo lado da minha mãe, sempre rolou muita música popular brasileira. Então, também cresci ouvindo Caetano, Chico Buarque, Adoniran Barbosa, Djavan, Cazuza, Marisa Monte… Até hoje, são meus dois estilos musicais favoritos (mpb e rock), mas eu curto ouvir (quase) tudo. Agora, um fato relevante na adolescência, que me aproximou dessa ideia de ter banda e tocar guitarra, e que foi “a porta de entrada” para drogas mais pesadas (risos), foi que um belo dia um primo meu esqueceu um disco do Nirvana na minha casa. Até hoje não parei de ouvir esse disco (risos).

Gabriela Brown: Eu me descobri afinada com 8 anos de idade cantando Kelly Key (risos). Meu avô sempre foi da música e sempre me deu todo incentivo do mundo. O resto do processo foi na base de empurrões de pessoas que eu amo pra ir perdendo a vergonha.

Mary Jane (Melanina MCs): Minha família é de músicos. Todos tocam instrumentos, cantam. Meu envolvimento maior era com samba. Hoje eu canto rap.

Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens): A música entrou na minha vida desde pequena, porque o meu pai é músico e a minha mãe, mesmo não sendo música, canta muito em casa e tem um contato muito forte com a música. Então, através deles, desde que eu estava na barriga da minha mãe eu já tinha contato com a música. E eu me interessei realmente por música, para estudar isso e me dedicar a isso, quando eu conheci o grunge nos anos 90 com uma banda chamada Nirvana. A partir deste contato que eu descobri que eu era apaixonada por música feita com a alma, com o coração e, principalmente, música que utiliza da guitarra e de transformações nos sons orgânicos. Ultimamente essa paixão vem com as mixagens que eu faço, com o sintetizador (que eu tenho tocado bastante) e com a produção de beats.

Karen Maria (Lady Lauren): Desde os oito anos fazia seresta com meu pai. Minha mãe o acompanhava e me levava (naquela época era seguro uma criança em um bar), e eu sempre cantava meia dúzia de músicas. E a partir dos anos fui conhecendo vários estilos que foram moldando meu gosto musical. Até me apaixonar pelo rock.

Lorena Bonna (Whatever Happened to Baby Jane): O meu pai sempre foi um amante de música. Me lembro quando criança que ele tinha um toca-discos e todos os dias quando chegava do trabalho tomava uma cerveja e colocava um disco pra ouvir. Aquilo deixava ele tão feliz e aliviado… Mesmo criança ele comprava uns discos pra mim também. Uma vez ele comprou uma fita k7 e um microfone pra eu gravar as músicas que mais gostava (risos). Era muito bom isso. Na minha família sempre fomos ligados pela música, por ambas as partes. Meu avô, caminhoneiro (sapatão tem que citar, né), tinha um acordeon, violão, órgão e, sempre nos domingos logo após o almoço, ele se trancava no quarto e tocava umas serestas lindas. Isso me encantava tanto! Mas mesmo meu pai amando música, nunca me apoiou de forma alguma tocar, então eu vi um anúncio no jornal que um cara trocava um vídeo game por uma guitarra e foi nessa que comecei. Entrei por uns poucos meses, digamos quatro meses, na aula de violão e saí porque, né… ensinavam Jota Quest e cismavam com o lance de partitura — coisa que nunca pirei, me sentia tão presa! Lembro que ficava em casa horas tentando fazer música, sempre com poucos acordes, mas com um som que achava gostoso. Isso já tem 13 anos e aqui estou.

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2) Nessa sua trajetória musical, você já enfrentou algum episódio no qual foi desrespeitada pelo fato de ser mulher?

Francesca Pera (Transe): De modo geral, no mundo da música as decisões musicais são conversadas entre homens. Então, existe um mundo que dificilmente é generoso com a mulher, aí rola uma barreira — a gente tem que ir entrando e tantas vezes passando por entrona mesmo. Passei episódios onde a minha opinião musical era totalmente ignorada, ou pessoas tentando mudar uma composição minha sem sequer se referir a mim, mesmo eu estando presente (sabe o que eu fiz? Nada), além de vários níveis de assédio. Tive que aprender a brigar pelas minhas ideias musicais e lutar pelo meu espaço até dentro do meu relacionamento com o Ferdi.  Enfim, os caras têm dificuldade em admitir que isso existe, e foi tanta repressão contra as mulheres que a violência ainda é muito velada, e, pelo fato de termos sido ensinadas a não reagir, às vezes até a própria mulher tem dificuldade de reconhecer ou impedir uma situação dessas. É foda, isso é real, adoece. No caso da música, geralmente são amigos, pessoas muito próximas, colaboradores e companheiros que cometem os abusos. Depois de passar por muitas crises, sai do casulo, toquei o foda-se e falei pra mim: “tenho direito, sou parte disso até a alma e eu quero mais!

Joana Bentes: Sim, diversas vezes. A princípio desanima, é como se a gente tivesse ou nadando contra a corrente ou como se nem ali estivéssemos. A única opção é respirar fundo e não desistir. Assim como existem machistas, existem pessoas que nos fazem sentir potentes, empoderadas. Nos dias atuais, principalmente, nos movimentos de protagonismo e valorização da mulher na música. A nossa união faz a luta valer a pena.

Lara Lorenzoni (The Truckers): Na época em que eu tocava no Entre Amigos com as bandas Belly Button e Rabufa (lá pra 2001 até 2005), eu sentia muito esse menosprezo. Era bem ridículo. Quando os caras viam que era mulher no palco tocando, já não levavam a sério. No caso da Belly, que era uma banda com quatro mulheres, era mais terrível ainda. Ficavam o tempo inteiro chamando a gente de “gostosa”, falando coisas nojentas, pegando o pedestal do nosso microfone e simulando o movimento de sexo oral… Patético mesmo. Na época, eu era muito nova e insegura, então isso me despertou uma paranoia no sentido de “preciso tocar muito, ser melhor que os caras pra poder me impor”. Aí eu ficava gastando na guitarra, querendo fazer altos riffs executados perfeitamente (risos), o que, na verdade, é uma grande besteira. Hoje em dia, esse preconceito ainda existe, porém acho que é um pouco mais amenizado e também mais velado. Tipo quando rola um festival e, havendo várias boas opções de bandas de mulheres pro estilo proposto, o cara só põe banda de homem. Aí, depois, as meninas vão questionar e o sujeito diz que é puro “mimimi”. Além disso, só o fato de haver raríssimas bandas de rock de mulheres na ativa no Espírito Santo hoje já demonstra esse menosprezo geral que se tem pela ideia de mulher em cima do palco. O incentivo pra uma menina aprender e se aprimorar num instrumento é quase inexistente aqui.

Gabriela Brown: Com certeza. Muitas vezes são coisas inconscientes, mas já fui muito interrompida, já tive que insistir várias vezes dizendo o que quero por não ser ouvida. Quem é mulher sabe que isso não é aleatório, é uma questão de gênero.

Mary Jane (Melanina MCs): Putz… Sem dúvida. Faço parte de um grupo composto por quatro mulheres. Nosso CD saiu agora nesse mês de Fevereiro. Estamos com ele à venda e quando eu vou oferecê-lo às pessoas (que não conhecem nosso trabalho, óbvio), elas falam logo: “NOSSA, MAS VOCÊS SÃO TÃO LINDAS, TINHAM QUE FAZER UM DVD DANÇANDO.” Isso me deixa um pouco revolta. De um lado tenho a certeza de estarmos evoluindo, ocupando espaços cada vez maiores. Por outro lado, penso: “Meu Deus… Vamos pular esse século” (risos).

Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens): Sim, já enfrentei muitas dificuldades. A gente se sente… Como é que você se sentiria se você fosse menosprezado por ser baixinha? Ou por você ser negro? Ou por você ser gordo? Você se sente pra baixo, péssimo. Só que, ao mesmo tempo, eu sei que é uma coisa histórica, eu sei que não vem de mim. Então, ao mesmo tempo que eu sempre me sinto pra baixo, eu sei que não é comigo. Dou uma leve patada na pessoa que fez isso comigo e sigo em frente.

Karen Maria (Lady Lauren): Já fui assediada no palco. Eu cantando na frente do palco, me virei pra banda e um babaca meteu a mão na minha bunda, pena os amigos dele terem o tirado antes do meu pé ter acertado a boca dele.

Lorena Bonna (Whatever Happened to Baby Jane): De certo que sim! É inacreditável como sempre a mulher tem que mostrar o dobro de esforço e perfeição. Logo no começo da banda, um cara falou que “até que pra uma banda de meninas tocamos bem” — isso no segundo show! Um tempo atrás, eu tocava em um projeto do qual fui expulsa, pois um cara me disse que eu não sabia e nunca ia saber tocar, e colocaram um cara no meu lugar. Bem, acho que eu fui a menina da banda, porque era maneiro. Bom, isso me causou uma tristeza profunda — a gente acha que precisa de aprovação né, claro —, mas me fez estudar mais e mais todos os dias. Tirava pelo menos duas ou três horas por dia pra tocar e assim, com o tempo, encontrei essas duas minas que tanto amo.

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3) O que você enxerga de mais absurdo no comportamento tanto de homens quanto de mulheres nessa questão?

Francesca Pera (Transe): A: “Não gosto de timbre de voz feminina.” B: “Ah é? Voz de quem?” A: “Não, não gosto de timbre-de-mulher. Não gosto de mulher tocando.” B: “De qual mulher tocando?” A: “Não, de-mulher-tocando.” Você não é obrigado a gostar de alguém por ser mulher, mas quando a conversa passa por esse tipo de generalização fico muito chocada. E não é fictício.

Joana Bentes: O desmerecimento do feminismo ou a completa ignorância sobre. Ainda existe muita confusão, gente achando que feminismo é sinônimo de machismo, além de entenderem como competição e não uma questão de direitos básicos.

Lara Lorenzoni (The Truckers):  Absurdo é quando os caras não entendem, por exemplo, que uma ou duas bandas de mina no line-up é o mínimo do mínimo! Sabe? Não precisa ter uma cota de uma ou duas bandinhas femininas pra não sair mal na fita… Tem tanta, mas TANTA banda boa tocando por aí com menina na formação nesse país afora! No nível em que a cena punk brasileira está hoje, já dá perfeitamente pra fazer um line misto tipo 50% x 50%. Não tem justificativa pra não fazer.  Fora isso, é preciso pontuar uma coisa: muitos caras da cena hardcore ainda não se tocaram de que determinadas letras e estéticas pra produção musical já não são mais cabíveis e ponto final. Nos anos 90, todos nós curtimos, foi divertido, mas hoje temos a consciência de que era extremamente machista e agressivo, que de revolucionário não tinha nada. Não tem que ficar insistindo, já foi o momento. O que seriam Raimundos (na era Rodolfo) e Mamonas Assassinas se lançados hoje, por exemplo? Não sei se eles fariam sucesso, mas certamente seriam massacrados por críticas do movimento feminista… Agora, falando em movimento feminista, do qual inclusive me considero parte, também temos um outro lado. Eu ando um pouco afastada da militância nas redes por causa dessa lógica pós-moderninha da lacração. A esquerda em geral parece que perdeu muito da sua capacidade de diálogo e de lidar com a alteridade. É importante bater de frente e “tacar a pedra”, sim. Mas, ultimamente, não sei até que ponto a esquerda só quer apontar dedo e fazer textão bonito ou efetivamente levantar a bunda da cadeira e fazer alguma coisa. Se for pra ficar só na primeira opção, eu tô fora. Tô ficando velha e não tenho mais paciência pra esperar as coisas acontecerem (risos).

Gabriela Brown: Posso dizer que tive sorte de conviver com bons homens na música, que me respeitaram bastante na minha equipe. Mas pra mim é surreal um homem relevar o que uma mulher tem a dizer, surreal diminuir, menosprezar, manipular. A gente sabe que rola. No lado da mulher, eu sempre faço questão de ser gentil e parceira, a competição feminina tem que estar sempre em desconstrução.

Mary Jane (Melanina MCs): Nós mulheres somos fodas… Eu faço música pensando em nós, pensando em protestar coisas absurdas que acontecem no nosso dia a dia e ninguém dá atenção. Às vezes precisamos pegar pesado nas composições quando uma mensagem tem que ser mais direta. Logo, mulheres me apoiam e alguns homens (não podemos generalizar, claro) se sentem ofendidos, tentam atacar de volta, dizem que somos revoltadas. Somos mesmo, IDAI? Somos a revolta, a revolução e o progresso. Vai me escutar!

Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens): O mais absurdo é a gente olhar para uma pessoa e, antes mesmo de conhecê-la e conversar com ela, achar alguma coisa a respeito dela — saber que conhece alguma coisa dela só olhando. Eu acho isso o cúmulo do absurdo. Eu não sei porque nós, seres humanos, fazemos isso. É um erro, é um erro lógico. A gente tem que parar com isso — não só em relação às mulheres, mas aos índios, aos negros, aos estrangeiros, às trans… todo mundo que sofre algum tipo de preconceito. Isso tem que parar urgente.

Karen Maria (Lady Lauren): É gritante o quanto subestimam a capacidade das mulheres como instrumentista ou frontwoman de uma banda. Em todos os locais né, vamos ser sinceras. Acredito que as mulheres se apoiam mais, pois se veem mais representadas, mas sempre tem as frutas podres. Enfim, a vida segue.

Lorena Bonna (Whatever Happened to Baby Jane): Das mulheres só vejo apoio e um pouco de receio, ainda mais no meio punk/hardcore muito dominado por homens brancos, héteros machistas e é complicado, pois há uns anos havia muita agressividade por meio deles. A banda tem recebido muito apoio dos rapazes e a gente tá conseguindo tocar em lugares que sejam para ambos de uma maneira respeitosa, tanto que as minas estão se sentindo à vontade pra participar das rodinhas e sempre ficarem no front sem medo. Claro que sempre tem um babaca, mas a gente nem enxerga eles — vamos pra ver quem realmente importa, aquelas meninas lindas tendo a oportunidade de ver que podem fazer o que quiserem.

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4) E você se considera feminista? O que isso representa pra você?

Francesca Pera (Transe): Sim. Uma necessidade.

Joana Bentes: Total. Não tinha a clareza do termo “feminismo” em si quando mais nova, mas hoje vejo que sempre me reconheci como tal. Desde criança percebia como nós, mulheres, éramos e ainda somos vistas e tratadas, sobretudo pelos homens, de forma esquizoide, inferior etc. Feminismo representa força, respeito em todas as instâncias da vida e deve ser não só uma reflexão comum a todos, mas uma prática constante e desafiadora, que dela depende a nossa própria permanência no mundo.

Lara Lorenzoni (The Truckers): Sim. Pra mim, de forma geral, isso representa que mulheres são tão dignas quanto homens e que merecem uma vida tão plena de direitos, sonhos e oportunidades quanto eles. De maneira mais específica, o feminismo é a minha chave de libertação pra diversas coisas na vida, como me fazer sentir capaz de tocar guitarra, ter banda e me permitir fazer as escolhas que quiser, desde a carreira até o corte de cabelo, independentemente do que os outros vão pensar a respeito.

Gabriela Brown: 100%. Isso representa não somente botar poder nas mãos das mulheres, como também a sensação de poder. Fundamental impulsionar questões relativas a autoestima e à nossa força, porque o planeta e o sistema insistem em dizer que somos menores que outros.

Mary Jane (Melanina MCs): Sim, claro. Todas temos formas diferentes de ser, mas todas por uma só causa. Igualdade, respeito, liberdade. Uma causa fortíssima que todas nós deveríamos abraçar.

Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens): Sim, me considero feminista. Pra mim, ser feminista é você se sentir engajada em uma luta social que vai diminuir a desigualdade entre homens e mulheres.

Karen Maria (Lady Lauren): Sim, sou. Aliás, qualquer mulher que faz seus próprios corres, que tá numa faculdade, que tá em casa cuidando de si mesma, ou dos filhos, qualquer mulher que tenha noção do seu valor é feminista. Esse nome é só um termo. O feminismo vai muito além de um nome ou um grupinho específico. Feminismo é auto valor, é igualdade, é liberdade.

Lorena Bonna (Whatever Happened to Baby Jane): Claro! Toda mulher é feminista desde o dia que te colocam um brinco na orelha pra te identificarem como mulher. Ser feminista é libertador, é se amar, peitar esse sistema, amar a outra mulher, enfrentar essa loucura de competição que nos colocam na cabeça. Aprendemos a nos defender e se tiver que pagar de louca que assim seja, porque sempre vai ter outra mulher lá que te entende. Feminismo é uma certeza que as mulheres têm de proteção e compreensão. Luta, não importa como. Uma luta diária.

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5) Existe alguma mulher dentro do mundo da música que lhe influencia?

Francesca Pera (Transe): Ahhh… são muitas e ainda dou preferência. Vou falar de três: A Gabi Deptulski, que é foda e tem um trabalho lindo, consistente e sideral. Eu me inspiro nela musicalmente e existencialmente, fazer contato com a Gabi tem me feito crescer bastante e tem sido muito importante para eu me fortalecer e acreditar. Amo Letrux, porque me identifico com uma certa coisa de sentir ser uma pessoa meio estranhona, acho que isso aparece na música dela de um jeito especial. Mãeana que eu sinto que ela carrega uma linhagem mágica, que é visual e musical, eu também sou bem visual… Acho a Mãena musa.

Joana Bentes: Todas! Valorizo muito quem produz, significa resistência. Mas se for pra escolher uma como referência, acho que fico com a Cássia Eller, pela entrega total em tudo que fazia. Cantava demais, era capaz de transformar qualquer música em sua, tamanha capacidade interpretativa, personalidade, além de ser uma instrumentista incrível. Artistona! Saudades!

Lara Lorenzoni (The Truckers): Sim, há várias, mas gosto muito particularmente da Elisa Gargiulo. Me identifico com muitos posicionamentos políticos dela, com as letras, e, cara, ela teve o Dominatrix no auge do machismo punk dos anos 90 (risos). E o Dominatrix foi o que foi, é o que é… A história dela e da banda dela falam por si só.

Gabriela Brown: Beyoncé, Elza Soares, Rita Lee. São mulheres que, na minha opinião, têm estéticas musicais impecáveis e nunca deixam de mandar o recado.

Mary Jane (Melanina MCs): Claro, tanto as mais antigas, quanto mulheres mais novas que foram surgindo. Kamilla CDD, Drika Barbosa, Elza Soares. As minas que compõem o Mulamba. Poderia ficar horas aqui escrevendo quantas mulheres FODAS me deixam tão inspirada. Elas me inspiram, porque sinto que a forma que elas passam a mensagem delas, é a mesma forma que eu passo a minha. Expressões, atitudes. Mulheres negras fortes!

Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens): Nossa, existem muitas mulheres que me influenciam. Acho que todas as mulheres músicas que eu convivi me influenciaram muito, tanto no que eu toco quanto na minha personalidade. A Larissa Conforto (baterista da banda Ventre), me influenciou e me influencia muito, a Rita Oliva (que tem um projeto chamado Papisa), a Ana Zumpano (baterista da Lava Divers), Karina Buhr, Samira Winter (da banda Winter) e a Flora Matos (uma rapper). Mas eu acho que a pessoa que tem mais me influenciado ultimamente por ser uma mulher que tem uma personalidade muito marcante e de uma inteligência muito forte é a vocalista do Carne Doce, que se chama Salma Jô. Eu acho que a sagacidade dela na hora de tratar os temas… Ela é bastante irônica. Faz chacota de temas que às vezes a gente ficaria com raiva. Ela é bem humorada na hora de compor, tem uma voz absolutamente incrível e uma presença de palco que é absurda.

Karen Maria (Lady Lauren): Caralho, muitas, meu nome é homenagem a Karen Carpenter da dupla Carpenters. Tem a Tina Turner, Marie Fredriksson (Roxette), Celine Dion, Janis Joplin, Rita Lee, Baby do Brasil, Elis, Cássia, Hayley Williams (Paramore), Becca Macintyre (Marmozets), Taylor Momsen, várias, de vários estilos.

Lorena Bonna (Whatever Happened to Baby Jane): Várias, mas tenho um carinho especial por duas: Kathleen Hanna e Kim Gordon. Kathleen Hanna, como para várias meninas, é a porta de entrada, e o Bikini Kill é uma banda com poucos acordes, sujos e profundos — fora que ela foi a precursora do movimento riot grrrl. Kim Gordon é intensa, vibrante e bruta. Me identifico com essas duas nuances musicais e na vida.

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6) Como você vê a evolução da representação feminina na música do Espírito Santo e do país?

Francesca Pera (Transe): Aos poucos, instrumentistas e compositoras do Espírito Santo têm ganhado espaço, monte de mina foda botando trampo no mundo e bombando. Ana, Gabi Deptulski, Gabi Brown, Gavi, Melaninas, Budah, Joana, Whatever Happenned to Baby Jane, devo estar esquecendo de gente querida… Tá tendo o bloco de Carnaval BatuqDellas, fiquei muito orgulhosa, quero entrar. O Bekoo das Pretas que é uma festa feminista com várias minas DJs. No país mais um monte de maravilhosa, tenho admirado os trabalhos de Letrux, Luiza Lian, Maria Beraldo, Xênia França, Larissa Luz, Elza, Pablo Vittar. Mulheres se organizando em tudo, trocando saberes técnicos e emocionais, estamos nos descobrindo!

Joana Bentes: Sempre vimos que no mundo artístico sobressaía muito mais um estímulo à competição entre as mulheres, como se não houvesse espaço pra todas, como se fosse algum motor (tosco, diga-se de passagem) de incentivo pro próprio trabalho. E hoje o que vivemos no Brasil é um momento mega especial, porque percebemos que juntas conseguimos ocupar muito mais espaços. Encontrar quem produz, tornar-se porta-voz, abrir portas, tudo isso está sendo muito mais possível por conta dessa mudança de perspectiva. Eu vejo que no ES ainda existe uma tendência ao trabalho solo, muito mais por uma questão cultural, e/ou por falta de apoio. E isso dificulta muito o impulsionamento do trabalho para além do estado. É aquela história da andorinha só que não faz verão. No âmbito nacional, poucas cantoras capixabas tiveram uma projeção maior. Mas acredito que essa aglutinação de artistas é um movimento que só vai fazer crescer, ainda que em alguns lugares o processo possa ser um pouco mais lento.

Lara Lorenzoni (The Truckers): Eu vejo com bons olhos. Fico ansiosa querendo logo que tenham um milhão de bandas de mulher e a gente possa fazer um grande festival (risos). Aqui no nosso estado, esse despertar pra necessidade de bandas de mina em meio a esse cenário político tosco que vivenciamos é extremamente recente. Em São Paulo, são muitas bandas, as gurias tão fazendo evento todo fim de semana. Aqui, estamos engatinhando, mas caminhamos! Não tem mais como negar: a revolução só será revolução se for feminista. A cena punk só será revolucionária se a mulher, o preto, o periférico, o homossexual, o transexual etc, tiverem voz dentro dela.

Gabriela Brown: Vejo com o maior orgulho do mundo de fazer parte disso, torcendo sempre. “Mulheres na música” é praticamente um movimento, já tocou e inspirou muita gente.

Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens): Eu acho que a representação feminina na música aumentou no Brasil inteiro e no Espírito Santo eu também vejo isso. Sinto que, quando eu comecei, era muito difícil encontrar instrumentistas meninas e hoje já é bem mais fácil, e as bandas de minas estão indo pra frente. As minas estão ganhando mais espaço. Acredito que poderia ser melhor, que, se os caras não atrapalhassem a gente a conseguir espaço (com medo de perder o deles), a gente teria uma evolução muito maior nisso. Só que, mesmo assim, a gente está conseguindo espaço. Eu vejo que tem a Whatever Happened to Baby Jane, tem a Melanina MCs e tem mais um monte de artistas que eu não vou conseguir lembrar o nome, mas eu vi em festas em Vitória. Infelizmente eu não sou de Vitória, eu sou de Colatina, então eu não consigo acompanhar tudo, mas eu me lembro que eu fui num evento chamado Intervenção Ü, feito pelo grupo de dança Marés, e nesse evento eu vi muita mina foda se apresentando. Foi aí que eu me toquei o quão forte estava a cultura feminina — o fazer feminino em Vitória.

Karen Maria (Lady Lauren): Acredito que temos bastante representatividade feminina sim. Aqui em Linhares, por exemplo, tem mais duas bandas de uns brothers meus que tem mulheres representando — Jolene e Saphyra in Sepia, são bandas boas, mas por enquanto de garagem, mas mandam muito. Poxa, em nível nacional temos a Far From Alaska — uma puta banda, com um puta vocal da Emmily Barreto —, temos a Nervosa no metal, Panndora, Broken Lingerie, temos muito conteúdo bom, com mulheres representando.

Lorena Bonna (Whatever Happened to Baby Jane): O Espírito Santo sempre foi um estado muito forte na representatividade musical. Antigamente tínhamos bandas fodas de mulheres, como o Fanny Feeling, por exemplo. Quando existia o Entre Amigos, havia até festival de bandas só com mulheres — claro que só as dos caras conseguiram alguma coisa. Mas comercialmente, no âmbito de cena, tenho certeza que aqui teve e tem muita coisa boa. Tenho percebido mais e mais mulheres tocando, cantando e colocando baba na boca dos caras julgadores e não é porque querem provar nada, é porque são.

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7) E como você enxerga o seu papel dentro deste cenário?

Francesca Pera (Transe): #mulherartistaresista

Joana Bentes: Acho que é primeiro fazer parte desse movimento, ser um elo, mesmo. É muito importante também identificar as mulheres que trabalham com música, incentivar seu aperfeiçoamento baseado nas qualidades que apresentem, se colocar à disposição para ajudar na área em que tiver mais facilidade, IR AOS SHOWS (falo isso a todo ser vivo que fica mais de um segundo na minha frente), porque só assim a roda não para de girar. Já morei em Vitória, Brasília, agora estou em Belo Horizonte, além de vivências múltiplas em São Paulo, e em todas elas dediquei grande parte do meu tempo a essas atividades. Acho que as experiências que absorvi em cada um desses lugares me tornou ainda mais consciente de que não estamos sozinhas e de que precisamos manter as conexões.

Lara Lorenzoni (The Truckers): Talvez eu seja uma das inúmeras porta-vozes dessa mensagem que existem por aí. Acho que tento, por meio das letras das músicas e das falas nos shows, além de me divertir e de divertir o público, passar pros outros um pouco do que acredito.

Gabriela Brown: Eu sinceramente espero com a música levantar minhas bandeiras e trazer um pouco a sensação de pertencimento feminino.

Mary Jane (Melanina MCs): O rap está em crescimento, ano após ano. Caminhos que foram abertos pra nós por outras pessoas, pessoas que lutaram pra HOJE ter tanta mulher botando a cara nessa cena. Cena ainda com a maioria sendo homem e, mesmo assim, as mulheres como sempre se destacando. Houve um tempo que as mulheres eram chamadas pra “participar do clipe de um som de um CARA,” ou pra fazer uma “participação num LoveSong” de um CARA ou só mesmo pra colocar nossas vozes maravilhosas num refrão qualquer.  Hoje falamos o que quisermos, botamos o dedo na ferida MESMO! Me sinto privilegiada em poder fazer o que faço, de descer do palco e ter uma mina chorando e dizendo que se sente representada por mim e se identifica com o que cantei ou até mesmo já sofreu a história que estamos cantando. Nada mais gratificante! Obrigada, Deus… NÓS NASCEMOS MULHER.

Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens): Acho que o meu papel nisso tudo é um papel de formiguinha, como o de todos nós que não têm um poder lá dentro do governo. A gente tem poder de voto, mas a gente não consegue agir lá dentro das medidas que os governantes estão tomando. Então, para todos que não têm esse tipo de poder, a única coisa que a gente pode fazer é, no dia a dia, conseguir lutar pelas coisas que a gente não concorda, então o meu papel é de falar para uma mina que está insegura que ela é capaz; meu papel é ensinar guitarra pra uma mina que acha que não vai conseguir aprender nenhum instrumento; meu papel é, quando eu for produzir um evento, dar preferência a uma banda de minas; meu papel é dar preferência para uma mina instrumentista vir tocar comigo. São essas pequenas coisas que você vai fazendo no dia a dia que vai estimulando uma rede de pessoas que vão ajudando outras mulheres a se infiltrarem em ambientes tão machistas dominados quase que completamente por homens.

Karen Maria (Lady Lauren): REPRESENTATIVIDADE é a palavra que define meu lugar no cenário, afinal não temos muitas bandas brasileiras com uma mulher transgênero como frontwoman, né?! Mas conheço muitas meninas que têm potencial e vontade, e quanto mais elas veem que podem sim subir em cima do palco e mostrar o seu talento, mais elas criam coragem pra tentar. Assim teremos mais bandas pra curtir e todo mundo fica feliz.

Lorena Bonna (Whatever Happened to Baby Jane): Apenas uma sapatão gritando feito uma doida todos os meus sentimentos empurrados goela abaixo.

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8) O que precisa mudar para que as mulheres sejam tratadas como “musicistas” ao invés de apenas “uma mulher que está na música”?

Francesca Pera (Transe): Acho que essa impressão da mulher na música é uma formação estrutural da nossa sociedade que até ser expurgada vai demorar um tempo, até porque existe uma dívida histórica também, mas eu sou uma pessoa otimista, temos que seguir lutando, porque há muita coisa mudando — a exemplo de tudo que tá fervendo aí. Enfim, eu não tenho resposta para essa pergunta, tenho o que eu tenho tentado fazer… Manter o amor, a faca amolada, o exercício de sabedoria e o apoio entre mulheres. Amor para poder investir em um projeto de humanidade (eu tenho uma filha e penso muito nisso), pra investir numa comunicação direta de uma nova consciência e a formação de um novo senso comum em relação às mulheres. Faca amolada pra cortar os abusos (os que vêm de pessoas externas e aqueles que foram gravados na nossa matriz e nos auto implantam medos de ocupar nossos lugares). Sabedoria pra aprender a me conectar com essa mulher selvagem e usar o facão de forma precisa e em prol dessa nova consciência. E pra finalizar, apoiar mulheres na música e procurar apoio entre elas. Microtransformações.

Joana Bentes: O que aparece bem claro pra mim é a objetificação da mulher. No meio da cultura e do entretenimento, principalmente, são lugares onde as mulheres não conseguem ser reconhecidas seja intelectualmente, tecnicamente ou intuitivamente. O menosprezo à capacidade da mulher tem se mostrado inversamente proporcional ao seu profissionalismo. Quanto mais isso for colocado em xeque, mais mulheres aparecerão, em qualquer área de saber. Porque o problema não é ser algo ordinário, é não poder ser e estar onde quiser.

Lara Lorenzoni (The Truckers): Precisa mudar a mentalidade das pessoas. Isso é um trabalho de formiguinha, mas está acontecendo. É preciso cada vez mais naturalizar a figura da mulher tocando no palco, porque isso ainda é tratado como algo exótico ou anormal, sendo o homem com instrumento tido como o padrão de normalidade. Isso é pura construção de pensamento.

Gabriela Brown: A mulher que se considera música ou musicista tem que ser tratada como música ou musicista.

Mary Jane (Melanina MCs): As pessoas precisam fechar os olhos do corpo e abrir os olhos da alma! Enxergar a gente como nós realmente somos. Apreciar nosso trabalho, porque realmente somos boas no que fazemos. Seja lá o que for que faça! Musicista, empregada, diretora, advogada, vendedora ou médica. Nós somos além de um corpo. Será que é tão difícil de ver além de uma estética?

Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens): Eu acho que precisa de uma educação diferente. Eu acho que a gente tem que começar a educar nós mesmos e nós mulheres também estamos inclusas nisso, porque nós nos enxergamos e nós nos inferiorizamos. Então, a primeira coisa é que a gente tem que parar de fazer isso, a gente tem que reconhecer dentro de nós mesmas a nossa capacidade. Então tem que haver esse tipo de autoeducação e acredito que falar sobre isso com os nossos amigos, os nossos familiares e colocar as pessoas conscientes do que é ser machista, porque muitas vezes as pessoas são machistas e elas não sabem que elas estão sendo. Eu mesma sinto isso em mim. Eu sinto que no passado eu era machista e conversas com pessoas muito esclarecidas me fizeram abrir os olhos e eu comecei a enxergar esse preconceito que eu tinha e começar a me educar para não tê-lo. Então, eu acho que o que deve que ser feito é isso: cada um dentro daquilo que pode — porque existem outras gerações, pessoas que tem ideias muito diferentes da galera da minha geração. As pessoas de todas as gerações têm que botar a mão na consciência mesmo e tentar enxergar as atitudes que elas tomam que prejudicam as mulheres.

Karen Maria (Lady Lauren): Desculpa, mas sempre considerei mulheres musicistas, sempre me identifiquei música. Sinto que meu trabalho é subestimado, mas nunca que não tenho espaço. Se alguém pensa assim, o problema não está nem nas mulheres, nem na qualidade da música e sim na pessoa. Com tanta mulher brasileira fazendo o nome durante todos esses anos no rock brasileiro, pensar assim é ser mais que babaca.

Lorena Bonna (Whatever Happened to Baby Jane): Acho que mudar é uma palavra muito contraditória, meio que “os incomodados que se mudem”. O que tem e está acontecendo é ocupar. Então, o que precisa é ocupar para que as mulheres sejam tratadas… só ocupar, porque elas são.

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9) Qual é a maior recompensa de ser mulher e trabalhar com música?

Francesca Pera (Transe): Expor minhas músicas, enfrentar meus medos e estar sendo acolhida e apoiada por outras mulheres. Como é bom não nos vermos como inimigas.

Joana Bentes: A representatividade. Pra uma menina poder ver uma mulher cantando e tocando guitarra, baixo, bateria, percussão, gaita, tuba, violoncelo, TERROR (risos) no palco e sentir que se ela quiser também pode e deve estar ali, em toda sua plenitude.

Lara Lorenzoni (The Truckers): Ouvir outras mulheres dizendo que se inspiraram em você pra aprender a tocar, ou que se identificaram muito com a letra de alguma música sua, que seu trabalho representa algo bom na vida delas. Com certeza, essa é a maior recompensa.

Gabriela Brown: Ouvir “você me fez achar bonito ser eu mesma“. Essa frase fez minha carreira.

Mary Jane (Melanina MCs): A maior recompensa em ser mulher, É SER MULHER e poder ser a mulher que querem que você não seja. Desafiadora, forte, inteligente, empoderada, autossuficiente… sem medo de falar o que pensa. E poder ser mulher num meio tão machista como o rap é um privilégio e uma oportunidade única de invadir a mente dessas pessoas e soltar só as verdades.

Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens): Eu não penso em questões de recompensa — tenho dificuldade em pensar assim. Mas eu acho que algo bom e saudável que existe em ser mulher na música é que você pode ser um pouco mais criativa. A gente é um tanto quanto mais solitária, porque a gente teve que aprender… Eu, por exemplo, tive que aprender guitarra sozinha. Meu pai me ensinou um pouquinho de violão e o resto eu que aprendi. Guitarra, sintetizador, baixo, bateria… todos esses instrumentos eu aprendi sozinha. E eu acho que as mulheres que eu observo, elas também tiveram um caminho muito solitário, porque eram sempre muitos homens envolvidos e a gente tem uma mentalidade muito criativa, porque… Por a gente ser mulher, a gente já foi colocada em regrinhas sociais que já fez a gente não gostar de regras desde nova. Então, nós somos seres bastante revolucionários. Quando a gente observa uma regra imposta sem sentido, sem motivo nenhum e sem lógica nenhuma, a gente já a percebe e a gente ultrapassa essa regra com muita facilidade — e com muito mais facilidade do que um homem que não precisou ultrapassar muitas regras para se expressar socialmente. Então, eu acho que essa coisa da gente ser mais revolucionária e da gente ter uma visão um pouco mais aguçada a respeito dos limites que a sociedade nos impõe, eu acho que isso torna a gente capaz de ser um artista diferente e trazer algo que nunca foi dito antes. Eu acho que essa é a parte boa de ser mulher e trabalhar com música.

Karen Maria (Lady Lauren): Inspirar outras meninas, seja a cantar, ou a compor, ou a escrever poemas, ou mesmo quando ela se identifica com alguma música minha. Até mesmo saber que ela se sentiu mais confiante depois de me ver tocar. Isso não tem preço. Quero ver cada vez mais mulheres cis e trans fazendo o nome no cenário do rock em todo o Brasil, e com isso cada vez mais mostrando seu valor.

Lorena Bonna (Whatever Happened to Baby Jane): É poder entrar no estúdio com minhas duas amigas e tocar; Entrar em um lugar e ver mulheres na frente, com raiva, expurgando, suando, sendo podre sem medo de empurrar um cara babaca; É poder mostrar para as outras meninas que com apenas três acordes elas podem se transmitir para fora.

Texto: João Depoli; Foto de capa: Victória Dessaune, Tati W. Franklin, Lilia Oliveira, Tati Hauer, Hannah Carvalho, João Depoli e Reprodução/YouTube.

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