Gabriel Abaurre lança Time Traveller: “Sou uma daquelas pessoas que acredita que deveria ter nascido em outra era.”

capa-gabriel-abaurre-time-traveller-ana-paula-mattedi
Foto de capa: Ana Paula Mattedi.
PUBLICIDADE

Se você tem uma queda pelos Beatles, certamente o nome Gabriel Abaurre lhe deve soar familiar. Famoso pelo seu trabalho como vocalista e guitarrista da banda The Singles, o cantor já trouxe um pouquinho de Liverpool para a noite de muita gente, tanto no Brasil quanto no exterior. No entanto, mesmo acostumado a entregar belíssimas performances em tributo à sua banda do coração, Abaurre desta vez optou por uma nova direção.

Na última sexta-feira (16), o cantor e compositor divulgou Time Traveller, seu primeiro registro como artista solo. Lançado pela gravadora Discobertas, o EP apresenta quatro lindas canções que agrupam influências de tudo o que Abaurre pôde absorver do Fab Four ao longo destes anos, assim como outros elementos de rock clássico, folk e country.

Seu processo de gravação teve início no estúdio Funky Pirata, em Vitória, mas precisou cruzar algumas fronteiras antes de chegar a seu resultado final. Aterrissou em Nova Iorque nas mãos de Eber Pinheiro para o processo de mixagem e finalmente teve sua masterização feita por Simon Gibson, no renomado Abbey Road, em Londres.

Veja abaixo a conversa que tivemos com o músico a respeito de seu EP, a motivação por trás de sua concepção, suas quatro canções, o itinerante processo de gravação e mais.

João Depoli: Eu falo por mim, mas creio que isso vale para muita gente: todas as vezes que escuto seu nome ou vejo você em cima de um palco, instantaneamente sou remetido àquele universo dos Beatles. Isso me levou a pensar que você tivesse encontrado uma zona de conforto bacana e ali ficaria para sempre — mas aparentemente não! De onde veio a motivação para lançar um registro autoral e ainda por cima solo?

Gabriel Abaurre: Minha associação com os Beatles é realmente muito intensa, as pessoas novas que conheço geralmente salvam meu nome no telefone delas como “Gabriel Beatles”. Tocar Beatles é certamente confortável e prazeroso, todos, ou quase todos os momentos musicais mais marcantes que tenho, tornaram-se realidade por causa deles. Tocar no Cavern Club, em outros países, estados e diversos festivais junto a pessoas que compartilham a mesma paixão é algo indescritível. Consigo expressar meus desejos e emoções através deles, mas não completamente… Preciso também cantar através de minhas próprias palavras e não havia outra maneira de fazê-lo se não com material totalmente novo.

As canções evidentemente têm uma forte influência dos Beatles — até porque eu acho que ninguém esperaria que você fizesse um disco de space jazz (creio que nem mesmo você) —, e isso mostra o quão seguro você é em termos musicais. Certamente não fez este EP para provar que é um virtuoso, nem nada. O que estas quatro canções significam pra você?

Certamente space jazz estaria um pouco fora da minha alçada, o meu mundo realmente é esse do rock clássico, folk e um pouco de country. Não tenho como provar para ninguém que sou um virtuoso, porque não sou mesmo — apenas canto e toco com todo o meu amor e convicção, sem importar a quantidade de notas, efeitos ou velocidade, desde que a música seja verdadeira para mim. Estas quatro canções concretizam uma fase de experimentação que começou lá em 2005, ano que comecei a compor e a aprimorar minhas habilidades até chegar na faixa “Honey”, em 2008. Sempre tive standards muito altos em relação a o que é uma boa canção por causa de minhas principais influências e, inevitavelmente, comparava meu trabalho com o dos Beatles, ou de Clapton, Elton John, Dylan… Para mim, nunca estava bom o suficiente, até essas quatro faixas serem concluídas.

PUBLICIDADE

Quando eu escuto o EP, ele me traz uma sensação de leveza, nostalgia e até mesmo evoca a ideia de um passeio ou viagem — o que me levou a pensar no seu título, Time Traveller. A que ele se refere e como ele amarra o conjunto apresentado?

Viajar sempre foi outra de minhas grandes paixões, não só no sentido de deslocar-se para outros estados ou países, mas também de viajar no tempo. Sou uma daquelas pessoas que acredita que deveria ter nascido em outra era. Obviamente, gosto muito dos anos 50 e 60, mas também me encanta a Belle Epoque, os Anos Dourados, os anos 40, o Renascimento, a Idade Média, enfim, vários pedaços de história, musical ou não, que fazem parte da minha formação e influências. Quanto ao conjunto apresentado, creio que o título remete a uma maneira de se fazer e gravar música como antigamente — algo que tem se tornado cada vez mais raro hoje em dia.

Antes de ser lançado, o EP passou por três estúdios em três países diferentes: Brasil, Estados Unidos e Inglaterra. Como foi o processo de gravação do disco aqui no Funky Pirata?

Explico melhor aqui o que disse na pergunta anterior: o processo de gravação em Vitória foi feito da maneira mais verdadeira e orgânica possível. Botamos todas as pessoas para tocar ao vivo, como se fosse um show, para que pudéssemos obter o feeling de se tocar em uma banda, onde cada indivíduo passa sua energia adiante e contribui em tempo real para a performance do grupo. Tudo foi supervisionado pelo nosso mixer, Eber Pinheiro, diretamente de NY. Hoje em dia, as pessoas costumam gravar as coisas separadamente, muitas vezes por limitações técnicas ou mesmo por escolha artística. Primeiro grava-se a bateria, em cima dela vai o baixo, depois os violões e assim sucessivamente. Funciona muito bem, mas creio que se perde a energia intensa de instrumentos soando juntos em uma sala, tocados por pessoas entrosadas e envolvidas emocionalmente com a música em questão. É claro que não conseguimos gravar absolutamente tudo de uma vez só, mas o coração da música pelo menos foi capturado de uma vez.

Você chegou ao estúdio com as músicas prontas ou elas foram construídas por lá?

Chegamos no estúdio com as músicas praticamente finalizadas — gravar hoje em dia em um estúdio do nível do Funky Pirata não é uma empreitada barata, então trabalhamos duro na pré-produção para otimizar ao máximo o tempo. “Honey” já estava pronta no papel e em gravações caseiras desde 2008; “Words” foi um trabalho de 2010 que já havia tentado gravar inúmeras vezes porém sempre faltava alguma coisa; “A Silly Love Song” compus e gravei em casa em 2015, porém mudamos um pouco o conceito dela para esse álbum; e “Little Girl” surgiu de uma letra que meu irmão, Vitor Abaurre, compôs que ganhou melodia e arranjo em um trabalho conjunto meu e do produtor do EP, Leonardo Bortolini.

capa-gabriel-abaurre-time-traveller-divulgação-facebook
Foto: Diego Crispim.

Você é uma pessoa bastante conhecida no universo musical e evidentemente têm vários amigos músicos que acompanham a sua carreira. Quem mais participou das gravações de Time Traveller?

Vamos lá. Meu irmão Vitor Abaurre não só tocou bateria e guitarras como também compôs a letra e cantou em “Little Girl”; Leonardo Bortolini produziu o EP, tocou baixo, teclado e também cantou; Ricardo Pimenta, meu companheiro da banda The Singles, cantou e tocou baixo; o lendário Babi Vaccari cantou, ajudou a arranjar vocais e também tocou bateria; Lucas Vicentini emprestou seu slide guitar inspirado ao melhor estilo Derek Trucks para o solo de “Words” e detalhes de outras músicas; Lucas Eller tocou bateira; e, finalmente, tivemos a participação de um quarteto de cordas formado por músicos da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo e de um quarteto de Metais do projeto Vale Música, todos arranjados e regidos pelo meu colega de UFES Deyvid Martins.

Como um fã dos Beatles, como foi ter o álbum masterizado em Abbey Road?

Foi algo que nunca imaginei possível, ter minhas próprias músicas masterizadas no mesmo estúdio em que os Beatles gravaram quase toda sua obra! Tudo isso foi possível graças à tecnologia. O Abbey Road é um estúdio de altíssima procura e com uma agenda bem cheia, para tentar suprir essa demanda eles criaram um serviço de Mixagem e Masterização Online. Você envia suas faixas, escolhe o engenheiro que vai realizar o trabalho e fica em contato direto com ele durante o processo. Escolhi Simon Gibson, que foi responsável pelo lançamento de todos os álbuns remasterizados dos Beatles em 2009, trabalhou em discos de Paul McCartney, além de ser um nome forte também quando se trata de música clássica e trilhas sonoras de Hollywood, tendo trabalhado com a Berliner Philharmoniker e masterizado trilhas para filmes de James Bond e o Hobbit.

Considerando todos os seus projetos atuais e o seu trabalho como comissário de bordo, quais são os próximos passos em termos de divulgação deste EP? Planeja fazer shows, vídeos, um lançamento físico?

Na realidade, planejo fazer todas essas coisas. Temos imagens para o videoclipe de uma das músicas e já estamos trabalhando na edição. O lançamento físico deve vir em CD e vinil junto com o show de divulgação, onde planejo reunir todos que participaram das gravações e outros amigos que também fazem parte da minha história musical. O trabalho de comissário torna a logística desses acontecimentos um pouco complexa, mas nada que não possamos resolver. Muitas coisas relacionadas a este trabalho ainda estão por vir!

Para finalizar, existem planos de fazer novos lançamentos no futuro?

Planos sempre existem, mas dependem única e exclusivamente de inspiração e trabalho duro para criar algo que possa chegar ao nível de satisfação e realização que me deu gravar esse EP, ou quem sabe ainda melhor. Por enquanto só posso dizer, “we hope you will enjoy the show!

Texto: João Depoli; Foto de capa: Ana Paula Mattedi.

Siga o Inferno Santo no Facebook e no Instagram e pare de passar vergonha dizendo que “no Espírito Santo não se faz música boa”!

inferno-santo-thumbnail-svg

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE