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Tudo parecia perdido quando as implacáveis chuvas do início do ano comprometeram as estruturas da icônica Casa Verde, um dos principais redutos da música alternativa da capital. Como se não pudesse ser pior, quem também se viu desabrigada com toda a situação foi a produtora Subtrópico, que além de produzir os eventos do local, também residia por lá. Assim, com a casa fechada para reformas, sua equipe não teve outra alternativa a não ser buscar um novo refúgio, afinal, o show tem que continuar.

Felizmente, um local provisório foi prontamente encontrado nas redondezas da Casa Verde, especificamente no número 55 da rua Coutinho Mascarenhas. “Uma casa de inverno, onírica, que flutua para outros formatos, experiências e sensações com a música,” nas palavras da própria produtora.

Em sua primeira noite, a casa recebeu o psicodélico e experimental MUDO, projeto dos músicos Gil Mello e Pedro Moscardi. Na sequência, veio o inusitado porém apaixonante duo country Hill Dreams, formado por João Lucas Ribeiro (The Muddy Brothers) e Rogério Aguiar (Lo-Fi). Logo depois foi a vez do cantor e compositor Juliano Rabujah passar por lá para fazer a pré-estreia de Poemia, seu novo disco.

Por fim, quem apareceu por lá para mais uma noite especial foi André Prando, que entregou o coração desta matéria: uma performance acústica e introdutória ao disco Voador, aquele que em breve se tornará seu segundo álbum de estúdio.

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Voador

Sucessor do brilhante Estranho Sutil (2015), Voador é a nova promessa de Prando. Um álbum com doze canções produzidas por JR Tostoi (Lenine) e arranjadas pelo próprio músico e seu parceiro de longa data, o baterista e produtor Henrique Paoli. Repleto de participações especiais de nomes como Duda Brack, Lucas Estrela, Federico Puppim, Lucas Arruda, Edu Szajnbrum, Jeremy Naud e Zé da Flauta (Alceu Valença, Ave Sangria), o álbum atualmente é alvo de uma campanha de financiamento coletivo no Catarse. Com término no dia 14 de Julho, a empreitada inclusive já ultrapassou a marca de 65%.

Em sua última passagem pela nova casa do Subtrópico, na última quarta-feira de Maio (30), o cantor e compositor apresentou as músicas deste novo trabalho da forma em que elas vieram ao mundo: voz e violão.

Descalço e em seu visual de trovador mago vagabundo, Prando, como um orgulhoso morador do Centro, estava literalmente em casa. Em uma de suas mãos empunhava confiante e sereno seu fiel violão Cort, enquanto na outra revezava entre uma long neck e uma garrafa da cachaça Salve Seu Bróder — bebida artesanal sabor bananinha feita pela Cachaça Santa Terezinha para ajudar no crowdfunding do músico (assim como toda a bilheteria daquela noite).

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Com o público sentado à sua volta, André passou as próximas horas apoiado apenas no repertório do Voador. Embora essa tenha sido a primeira vez em que tais canções foram apresentadas ao vivo (e nem sequer estavam na ordem do disco), o resultado foi maravilhoso — e convenhamos, escutar apenas músicas novas ao longo de um show pode ser um tremendo e maçante exercício de autocontrole.

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“Alegria danada de poder tocar essa música”

Com seu carisma convidativo, Prando começou o show com “Ode à Nudez”, uma trova repleta de uivos e com um ritmo marcante e envolvente. “Eu pareço você, eu me sinto em você,” ele canta vidrado em sua plateia como se estivesse encarando a própria alma de cada um.

Curiosamente, essa foi uma das músicas que André tocou na semana anterior, acompanhado de sua banda, durante um dos showcases do evento Formemus. O fato de que ambas as versões soam completamente diferentes não poderia ter sido melhor. Na verdade, enriqueceu ainda mais a noite na casa Subtrópico por justamente revelar a gênese e o coração destas novas canções, nos deixando intrigados sobre o que realmente esperar do disco.

Sua segunda canção foi a já conhecida “Em Chamas no Chão”, lançada ainda em 2017 como um single prévio do novo álbum. “Desde criança eu acredito no disco voador,” disse o músico ao explicar que trata seu novo trabalho como um voo de observação e um aprendizado de vida.

Pautada numa sonoridade um tanto quanto oriental (como uma canção a ser tocada num deserto ao entardecer), o show continuou com “Ave Maquinaria”. Após uma levada meio egípcia, sua dinâmica muda ao entrar no refrão, onde assume a roupagem de um blues soturno. Novamente em meio a alguns uivos, Prando critica o modo de vida contemporâneo com a máxima: “são séculos de evolução e alguma máquina queimou seus olhos.” Simplesmente arrepiante.

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“Alegria danada de poder tocar essa música,” confidenciou André ao introduzir a primeira das canções de autoria do músico e amigo Santiago Emanuel. Composta por acordes dissonantes e nada óbvios que criam uma atmosfera assustadora em meio a uma grande tensão, “Eu Vi Num Transe” é uma das músicas mais poderosas de Voador. “Amor e música são as expressões definitivas da humanidade,” entoa André durante um sonho de tempos em que os músicos serão presidentes e os artistas os formadores da sociedade.

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Dando continuidade às canções do amigo, Prando apresentou “Salve Seu Bróder”, carta marcada em suas apresentações e também o tema de sua campanha de financiamento coletivo. Durante sua execução, o cantor convidou a todos para entoarem juntos o refrão que dá título à canção. Sem titubear, todos os presentes cantaram o mantra em uníssono num emocionante e especial coro que tomou conta do lugar.

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“Já falou com seus demônios hoje?”

Finalizado esse passeio indiano com a dobradinha Santiago Emanuel, André optou por tocar um número bastante especial chamado “Moro no Interior do Mundo”. Segundo ele, essa é uma canção que lhe trouxe a mesma sensação de conquista que teve ao compor “Choro Plebeu”, a oitava faixa de Estranho Sutil. Intencional ou não, essa é uma música que pode muito bem representar a cidade de Vitória, a casa do músico. É uma espécie de balada rural que critica alguns vícios e condutas de uma sociedade provinciana que se acha “menor por ser daqui, por não ser de lá”.

Na sequência, ele tocou “Marinheira, Musa dos Cetáceos”, canção cheia de dedilhados, delays, falsetos e com uma pegada mais rock, diferente das canções que o músico já lançou até então.

Esta foi seguida por uma música antiga chamada “Catalepsia Projetiva”, que se refere a um distúrbio do sono que acomete o cantor. Para quem não está familiarizado com isso, trata-se de uma condição temporária na qual a mente desperta enquanto o corpo ainda permanece paralisado durante o sono. Embora seja um fenômeno benigno, ele pode trazer uma enorme sensação de agonia e impotência e inclusive algumas alucinações. “Já falou com seus demônios hoje?,” canta Prando em meio a uma bela reflexão do que é acordar sem realmente acordar. Como é de se imaginar, esta é uma canção bem angustiante, sobretudo para quem também compartilha deste distúrbio.

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Saindo dessa incursão ao xamanismo e ao mundo dos sonhos, o público da capital foi então convidado a uma atmosfera mais leve quando Prando deu início a uma música instrumentalmente tranquila, e que em termos líricos trata do desapego. Essa noção, no entanto, é contrastada com a urgente pressão da vida em sociedade, que a todo momento tenta nos “asfaltar”. O músico solta todo o seu vozeirão majestoso ao longo da repetição final do trecho “concretos tentarão me atar até matar.” Impressionante.

“Não tenho saudade do passado”

A música seguinte chama-se “Fantasmas Talvez” e foi composta numa época pré-Vão (EP de estreia do cantor, lançado em 2014). Mesmo que André tenha garantido que ela foi repaginada para entrar no Voador, a canção ainda exibe traços de um jovem compositor em busca de sua voz. É até possível visualizar um ainda recém-adulto André Prando em seu quarto cantando sobre melancolia juvenil. Apesar disso, a canção consegue ser extremamente condizente com o momento em que o cantor está: “Não tenho saudade do passado.”

A duas músicas do fim, a próxima foi “Concha”, a tradicional música badtrip que nunca pode faltar em seus lançamentos. É uma canção com uma levada devagar e carregada, como se fosse a trilha sonora de um filme de suspense. “Eu não gostei do gosto de ser outro,” canta André antes de “voltar à sua concha protetora”. O ápice da canção chega em seu momento final, quando ele executa um impressionante solo de vocal capaz de atropelar muitas distorções e wah wahs por aí.

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Para finalizar o repertório de seu novo álbum, Prando sintetiza toda a pluralidade de emoções do novo disco com “O Mundo Com Tudo Que Há”. Antes de apresentá-la, no entanto, ele conta um pouco da história de sua composição, que ocorreu num dia em que tocava seu violão para o cachorro do amigo e também músico Juliano Rabujah. A letra, por sua vez, fala sobre o sumiço de Raul, o gato de sua sogra. Na cabeça de Prando, a fuga do felino foi motivada pelo livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. “É só ir com sede. É só sair da sede,” canta André sobre aquela tão familiar sensação de escapismo.

Mesmo com a ausência de arranjos de guitarra, baixo, bateria e demais camadas instrumentais, Prando definitivamente nos convenceu de que tem um conjunto de respeito para este novo lançamento. Com doze músicas envolventes, maduras e com a sua cara, Voador será um digno sucessor do tão elogiado trabalho exibido em Estranho Sutil.

“Essas foram as músicas do Voador, bem-vindos,” proclamou o sorridente músico em meio às palmas de seus conterrâneos. Bravo!

Texto: João Depoli; Fotos: Victória Dessaune/Fita Demo.

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