'Shortcuts Through the Heart of Some Hill Dreams': Uma entrevista com João Lucas Ribeiro

Me joguei no coração do rolê hardcoreano vila-velhense para conversar com o vocalista do Muddy Brothers sobre sua nova investida: o duo capixaba-paulista de country e folk Hill Dreams

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João Lucas Ribeiro em ação (Crédito: Fernando Yakota).
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“Não tem Heineken?”, exclama em espanto João Lucas Ribeiro, o doce e feroz vocalista da banda The Muddy Brothers. Nós havíamos acabado de receber uma triste negativa de um dos funcionários da loja de conveniência do falido posto Veleiros, em Vila Velha, sobre a disponibilidade de nossa bebida de escolha—e ainda se perguntam o que deu errado por lá. Tudo bem, a distribuidora do outro lado da rua nos recebeu de uma forma muito mais simpática e acolhedora. “Quantas vocês querem?”, perguntou o atendente com o semblante firme de alguém que nunca viu sua fonte secar.

Finalmente com nossas bebidas em mãos (por sinal, uma das mais geladas que eu já tomei), sentamos na beira da calçada, na última mesa de madeira ainda disponível no local. Ao nosso redor, executivos cansados de uma segunda-feira cheia agora se afogavam em suas cervejas antes de voltarem às suas casas. Conversavam desavergonhadamente sobre suas expectativas para a eleição do último domingo (7) e o seu particular interesse num dos candidatos (#elenão). No meio disso estávamos nós, uma bela antítese do local, sobretudo considerando os longos cabelos e barba de Ribeiro, que também vestia uma camiseta do duo catarinense Muñoz e um short preto do Crackinho—o clássico visual hardcoreano praieiro.

Dali em diante, o que deveria ter sido um rápido papo sobre folk e country acabou passando por uma incrível reviravolta, nos levando ao coração alcóolico do hardcore canela-verde numa noite repleta de risadas, desabafos e histórias ao lado das figuras mais excêntricas desse cenário. Mas antes disso, nós nos perdemos momentaneamente em alguns atalhos pelo coração de lugar nenhum para falarmos sobre o Hill Dreams, o não-tão-novo projeto de João Lucas e Rogério Aguiar (da banda paulista de punk rock Lo-Fi).

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Embora a investida pareça repentina—afinal, eles deram as caras pela primeira vez há menos de cinco de meses—a história de Ribeiro e Aguiar já data de alguns anos. “A gente se uniu por causa da música e pela vontade de fazer música junto”, confessa o vocalista. Eles se conheceram em São Paulo, numa festa na casa de Alexandre Capilé, das bandas Sugar Kane e Water Rats, quando João ainda estudava por lá. “A gente se esbarrou lá, começou a conversar e a trocar ideia de som e ficamos amigos instantaneamente”, lembra.

Separados por mais de 900 km graças à volta de João ao Espírito Santo, os músicos fizeram sua primeira apresentação ao público capixaba em maio, cerca de dois anos após tal festa. Depois disso, só conseguiram se apresentar novamente em setembro, quando tocaram diversos sets durante os intervalos dos shows do Läjä Festival Vol. 2. Apesar dos nervos à flor da pele (“Eu estava com muito medo de destoar”, admite Ribeiro), a serenidade de sua performance sob a luz da lua foi terapêutica. Revigorou instantaneamente os ânimos do público recém fuzilado pela artilharia sonora pesada do line-up da noite—que incluía Whatever Happened to Baby Jane, Os Pedrero, Damn Youth, Hablan Por La Espalda e mais.

No tempo que se passou entre esses shows de maio e setembro, a dupla não só manteve a chama do Hill Dreams acesa, como também continuou trabalhando em suas composições. Numa dessas vindas de Rogério a Vila Velha, os amigos se reuniram para uma sessão de gravação com os parceiros de banda de João, os irmãos Renato e Will Just. O primeiro pôde participar do processo em pessoa, ao passo que o segundo contribuiu via chamadas de vídeo, já que hoje vive em Boston. O trabalho, por sua vez, fluiu tão bem que as dez canções captadas acabaram se tornando Shortcuts Through The Heart of Nowhere, o álbum de estreia do duo.

Lançado pela Läjä Records no dia 28 de setembro, o disco agora leva o Hill Dreams não só para os seus primeiros shows em São Paulo, mas para uma turnê pelo sul dos Estados Unidos. Por lá, Ribeiro e Aguiar passarão seus dias em meio a lendárias cidades e paisagens que serviram de inspiração para os grandes desbravadores de um gênero musical que mudou a vida de incontáveis gerações ao redor do mundo.

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Capa do primeiro disco do Hill Dreams (Crédito: Nicolas Delavy).

João Depoli: É difícil falar contigo sem deixar pra trás algumas coisas, então eu preciso começar com o óbvio. No final ano passado, você e a sua banda, Muddy Brothers, venceram o concurso da Harley-Davidson, ganharam uma moto, estavam super em alta e todo mundo achou que disso sairia um novo disco. No entanto, o disco que veio foi o do Hill Dreams. Por que você resolveu fazer essa curva ao invés de seguir uma direção mais certa e segura?

João Lucas Ribeiro: Antes de entrar nesse concurso da Harley-Davidson, eu já tinha esse projeto com o Rogério e [já pensávamos] em gravar. O Muddy Brothers teve umas complicações por questões familiares dos outros caras, sacou? Estava tudo certo pra gente viajar [para os Estados Unidos], mas rolou uns problemas na família deles e aí eles ficaram presos, sacou? Não rolou. Eu estava com uma graninha guardada e aí eu falei: “Ah, eu quero ir”. Eu já tinha esse projeto com o Rogério e calhou de tudo isso acontecer.

Pra quem está de fora, o Hill Dreams parece ter surgido de repente. No entanto, a primeira vez que eu vi vocês juntos foi numa entrevista que o Rogério fez contigo no início de 2016. Depois eu vi que vocês abriram uma conta no Instagram e a primeira publicação data de julho do ano passado. Nesse meio tempo, quando exatamente a banda surgiu?

Eu conheci o Rogério em São Paulo, não sei se foi 2015 ou 2016. Foi num show do Zero Zero, ou Deb and The Mentals, com Water Rats, e aí rolou uma festa depois na casa do Capilé. A gente se esbarrou lá, começou a conversar e a trocar ideia de som e ficamos amigos instantaneamente, bicho. Aí a gente manteve contato. Ele ia lá na minha casa em São Paulo e ele tinha esse programa de entrevista, aí ele falou: “Pô, João, vamos fazer [o programa]. Você é um cara massa de conversar. Curti as referências e tal”. Ele foi lá e fez, e aí a gente começou a trocar músicas. Pode-se dizer que desde 2016 já tem o Hill Dreams. Surgiu com a amizade minha e do Rogério. A gente se uniu por causa da música e pela vontade de fazer música junto.

Já começou com composições autorais então.

Sim. Ele ia lá em casa, me mostrava as músicas dele, eu mostrava as minhas, e a gente ia dando pitaco um no outro. Mas aí eu voltei pra cá e o Rogério já veio me visitar umas três vezes. Logo que eu voltei, ele já falou: “João, a gente podia gravar, né bicho? Dar continuidade”. [Quando] o Will viajou para os Estados Unidos, ele deixou uma placa de gravação com o Renato. Aí eu falei: “Rogério, tem a plaquinha aqui. Numa dessas suas vindas, vamos pegar as composições, juntar essas músicas e [gravar]”.

 

“Quem me conhece
como pessoa sabe
que essa é a
minha praia.”

 

E por que esse estilo country, meio folk?

Porra, é uma paixão minha de muito tempo, o folk… principalmente o folk. O country é mais recente, mas minha paixão—a maior compositora pra mim é Joni Mitchell, Leonard Cohen… são meus deuses. É a coisa que eu sempre ouvi. Ouço mais do que rock n’ roll… muito mais!

Eu confesso que o meu conhecimento sobre folk/country não é tão diverso. Eu lembro de ter assistido à sua entrevista com o Rogério, em que vocês falam bastante sobre Joni Mitchell, Gram Parsons e The Flying Burrito Brothers, e depois eu fui buscar esses artistas e acabei me surpreendendo. É bom demais!

Não é, bicho? É uma coisa que aqui a galera tá cagando. No estado ninguém faz porra nenhuma parecida—não estou tirando onda, mas ninguém gosta.

É a sua escola, né?

É a minha parada. Sempre foi. Eu tenho músicas assim desde antes de entrar no Válvula, que era a banda antes do Muddy Brothers. Eu gosto muito, então [pode ser] diferente para quem me conhece pelo Muddy Brothers, mas para quem me conhece como pessoa, sabe que essa é a minha praia.

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O folk tem uma relação muito próxima com o rock n’ roll, então eu achei bem natural esse projeto puxar pra esse lado.

Ia ser uma doideira se eu fizesse um projeto metalzão.

Não iria colar nunca.

É, e faz sentido, porque, desde o Muddy Brothers eu trazia um pouco dessa minha influência mais melódica de cantoras femininas e meu jeito de cantar tem muita influência de cantoras, desde o jazz e do folk também. Então dá para entender.

Também é interessante que, embora a Muddy Brothers não tenha gravado um sucessor para Facing The Sky (Backwards) (2016), quem gravou o álbum do Hill Dreams foram os caras da banda, o Renato e o Will. Como foi isso? Foi estranho gravar outra coisa com eles?

Nada, deu super certo, porque eu, o Rogério e o Renato somos amigos, bicho. Podia gritar um com o outro, podia mandar se foder. [Embora] o Will tenha deixado essa plaquinha aqui, foi tudo bem caseiro. A cerne do Hill Dreams—a ideia de gravar um disco—surgiu quando eu e Rogério começamos a comentar sobre o documentário daquele ator [e cantor], Harry Dean Stanton, que até morreu recentemente [Harry Dean Stanton: Partly Fiction (2012)]. É incrível. O documentário é todo ele conversando com o David Lynch sobre a carreira dele de ator. Ele é um ator muito diferente… peculiar. E, no meio desse documentário, ele vai cantando músicas, tipo naquele filme Paris, Texas [de 1984]. Intercala [entre perguntas e] o Harry Dean cantando, sentado no mesmo lugar, com um microfone e um cara tocando violão do lado. Aí eu e Rogério comentando isso, falamos: “Caralho, a gente podia gravar assim”.

E vocês gravaram aqui em Vila Velha?

Sim, na casa do Renato, lá em Gaivotas. A gente falou: “Caralho, vamos gravar assim. Vai ficar lo-fi, vai ficar bem caseirão assim mesmo”. Mas houveram músicas que eu falei: “Hmmm, vai ter que ter uma coisinha a mais aqui. Não vai dar pra ficar tão seco”. E aí eu coloquei mais camadas de voz.

Eu notei que algumas músicas têm uns overdubs de voz.

É, eu botei harmonia onde eu vi que cabia uma harmonia. Mas o disco, pode se falar que é um disco caseiro. A gente apertava a camerazinha do Whatsapp e o Will ficava: “Microfone tá errado aí”, “Faz assim”, “Puta que pariu, vocês estão num lugar ruim e não sei o que”. O Will foi tentando dar uma ajuda, mas aí o Renato… dois doidos, bicho, fazia tudo bebendo. Aí o Rogério veio pra cá numa dessas visitas pra trabalhar num evento do Alcides [Carnes y Tragos]. Aí ele trabalhou, ficou mais uma semana, a gente juntou as músicas e em uma semana a gente gravou o disco. De uma vez só.

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Renato Just (esq.), Rogério Aguiar e João Lucas finalizam as gravações do disco (Reprodução/Instagram).

Você falou bastante de amizade, com o Rogério e com o pessoal do Muddy Brothers, e outra pessoa que também esteve envolvida nesse projeto foi o Fabio Mozine [Mukeka di Rato, Os Pedrero, Merda], que também é um grande amigo seu. Eu achei interessante, porque quando se pensa no Mozine e nas coisas que ele lança pela Läjä Records, se pensa em algo mais sujo, mais agressivo, mas ao mesmo se pensa em toda essa vibe de algo caseiro, meio lo-fi, meio undergroundzão. E isso combina muito com o que você descreveu.

Cara, o Mozine é muito meu amigo e muito amigo do Rogério também. Eu acho que a Läjä já perdeu essa coisa de lançar—desde o Figueroas—um só estilo. Desde que a gente mostrou as músicas pra ele, na casa dele, com o violão, ele pirou. Gostou pra caralho e lançou. Ele sempre esteve dentro do projeto. Ele sempre apoiou a gente e estava implícito desde o começo que iria sair pela Läjä.

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A participação do Hill Dreams na segunda edição do Läjä Festival também foi muito legal. Foi algo completamente inusitado, vocês no deck, mas deu super certo.

Caralho, eu estava com muito medo de destoar. Via Guitarria, Wareba, Damn Youth… A gente batia mais com o Hablan Por La Espalda, que é um rock n’ roll com influência dos Stones pra caralho. Eu falei: “Caralho, imagina a galera ver Damn Youth e depois ver os dois velhos tocando violão lá fora?”. Só que calhou e ficou bom pra caralho! A galera gostou.

Deu um contraste muito bom com o resto do line-up.

A Fluente ajudou muito, com aquele deckzinho ali. A Farah [Victor, da produtora Antimofo] ajudou muito a gente, porra, botando uma decoraçãozinha ali. Se fosse no Correria não teria dado certo.

Destoaria demais.

Sim. Pô, foi de noite, a galera tomando uma, vendo ali.

 

“São experiências pessoais ali, tanto minhas quanto do Rogério. Desde ter o coração partido à aversão e todas as fases que você vê no luto de um relacionamento.”

 

Embora o projeto tenha levado anos para se formar, passando pela amizade, composição e mais, como eu já disse, para quem está de fora, parece que foi algo bem repentino. Começou com um show no Subtrópico, depois teve essa participação no Läjä Festival e agora aparece uma turnê pelos Estados Unidos! O que foi isso?

Rapaz, foi assim: o Rogério tem muitos amigos lá nos Estados Unidos. Ele já foi com a Lo-Fi umas três vezes. E aí tem essa galera lá do sul, óbvio, que se amarra muito em country, folk e tal. Aí o Rogério foi pedindo: “João, grava uma música sua que eu vou mandar pros caras, só para eles ouvirem sua voz”. E os caras foram pirando e aí o Rogério foi mandando as pré-mix e os caras ficaram: “Caralho, vocês têm que vir [pra cá]”. Aí, antes da gente gravar, os caras já estavam chamando a gente: “Outubro é uma época massa de fazer show aqui e vocês têm que vir”. A gente lançou o disco e eles foram mostrando as casas de shows… Os caras fazem parte do Hill Dreams. A gente vai tocar em Clarksdale, que é a cidade da encruzilhada do Robert Johnson [onde, reza a lenda, ele vendeu sua alma ao diabo], vai rolar Dallas… Tá faltando Nashville ainda…

Nashville é responsa, hein?

Cara, tem uma parada que… É quase que… Tem grandes chances de que a gente possa gravar no estúdio do Jack White [White Stripes, The Raconteurs, The Dead Weather], lá na Third Man Records.

Naquela cabine que você toca e o vinil já é prensado na hora?

É! A gente talvez consiga gravar lá. Tá, tipo, 99,9% de certeza. A gente já tem umas quatro músicas novas que a gente vai gravar lá. Tem até uma música do Shortcuts que a gente vai gravar com banda.

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Esse estilo de música dá muito certo nos Estados Unidos. Você não pensa em fixar residência por lá?

Pra caralho! Eu acho que a situação aqui… Vindo pra cá eu vi uns adesivos nos carros que, nossa… Pra gente que vive de música, você vai pros Estados Unidos e, não está lindo também, tem um demônio no governo, mas lá todas as cidades têm venues e locais pra tocar… Eu tô pensando.

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Datas já confirmadas da turnê pelo sul dos Estados Unidos.

Sobre o disco, a temática das canções é aquela temática clássica de heartbreak, coração partido e tal. Isso foi mera formalidade de estilo ou você tentou refletir sensações suas?

São experiências pessoais ali, tanto minhas quanto do Rogério. Desde ter o coração partido à aversão e todas as fases que você vê no luto de um relacionamento. Às vezes, quando você escreve uma letra sobre o coração partido, parece que ela está direcionada pra pessoa, mas às vezes está direcionada a você também, porque se você fica se lamentando muito que perdeu uma pessoa, você acaba se perdendo também. A saudade que você descreve da pessoa às vezes é a saudade que você sente de si mesmo, daquela essência que você tinha antes e você fala que a pessoa roubou. Não é que a pessoa roubou, é um trauma que está ali e você está sentindo saudade de você também. O Hill Dreams parece estar seguindo uma temática, mas é bem verdadeiro. Foi bem do fundo do coração. Tem música que eu estava tocando ao vivo que caiu lágrima.

 

“Hill Dreams meio que salvou a gente.”

 

Eu estava escutando o Shortcuts Through The Heart of Nowhere e fui tentando analisar a progressão de suas faixas. Não sei se foi a ideia de vocês, mas o que me parece é que ele é um disco conceitual.

É? Por que? Essa é a melhor coisa que pode se ouvir: “Foi conceitual sem querer”. Fala mais aí!

Na minha interpretação, ele parece uma narrativa muito bem definida na verdade, como se você ou o eu-lírico, que seja, navegasse perdido nesses atalhos que não levam a lugar algum.

Sim.

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Na primeira, “Always Did Something Wrong”, você canta: “Nunca fui tão forte, sempre fiz algo errado”. Essa seria a premissa da história: uma perda. Tudo começa com um coração partido devido a uma série de erros que você ou o eu-lírico cometeu. Depois vem “And She’ll Never Forget Me”, como se o protagonista ainda estivesse em negação com o fim de um relacionamento: “When my babe she get’s home, I’m alright/She makes me feel so strong/I can never feel alone/Oh without her I’m nothing to this world”. Você fala como a pessoa te completa e até chega a pedir a Deus para não deixá-la esquecê-lo. Já em “Joselyn”, existe a sensação de uma espécie de lembrança dessa pessoa. Você fala de sonhos, que é o único espectro ou lugar que restou para que vocês possam viver juntos. Depois vem “Still”, que é a mais longa, até como se fosse instrumental e liricamente proposital. Como se você não quisesse desgarrar daquela lembrança. Já constatou que não tem mais aquela pessoa, que ela se foi, mas não quer que o relacionamento, assim como a própria música, se acabe…

Pô, legal! Essa é a que a gente quer gravar com banda.

Em seguida chega “Same Mistakes”, que é uma canção mais sombria, com uma levada mais na onda de “The House of The Rising Sun”, tanto na atmosfera instrumental quanto na vocal. É como se o narrador já estivesse exausto daquela condição e já não aguentasse mais lutar, se dando então por vencido…

É, lembra pra caralho. Nela eu canto miado, meio que Karen Dalton.

Aí vem “Gone Gone Gone”, que é um desabafo cansado de alguém que finalmente aceitou e compreendeu a situação em que está, abrindo caminho para “Memory of Your Smile”, que retrata o fundo do poço. Ela soa quase que como uma carta de suicídio: a pessoa já viu que não tinha mais o que fazer, desabafou e agora chegou ao ponto em que nem se importa mais se está viva ou não. Você, de uma maneira extremamente melancólica, canta sobre fechar os olhos para se lembrar do sorriso de alguém, como se fosse a única coisa que lhe restasse. Mas então vocês entram em “Help Me Jesus”, em que, depois de chegar ao buraco, o narrador percebe que ainda existe uma saída, e busca um jeito de se reerguer. Pede ajuda para Jesus e até ensaia uma espécie de otimismo em coisas banais como “comprar um terno novo para se livrar da tristeza”. Aí vem “Ode To Those Who Drowned”…

Essa música não é nossa! Ela é um poema chamado “Strange Fruit”. Eu canto uma versão da versão da versão. Os “frutos estranhos” são os negros balançando das árvores. É uma música de protesto contra essa galera lá do sul que enforcava os negros. “Ode To Those Who Drowned”, eu coloquei o nome dessa música assim, porque a versão que eu canto é a versão do Jeff Buckley, que se afogou num afluente do Rio Mississipi, perto de onde a gente vai tocar. Foi quem me ensinou a cantar, bicho.

Agora isso cria uma nova perspectiva à sua versão dessa música. Na minha interpretação de narrativa, é como se o narrador lamentasse por todos aqueles que não conseguiram achar seu caminho de volta. Você canta uma última canção em homenagem a todos aqueles que se perderam e não conseguiram encontrar a luz. É arrepiante, com todos aqueles vocais fúnebres, os estalar dos dedos e tal…

Porra, legal… A Canção do Cisne! Mas e a última? Quero ouvir o que você vai falar da última, porque ela é a que mais destoa do disco.

Pois é, “My Babe Went Cold on Me”. É o encerramento. Pra mim é como se você já estivesse em paz com o que perdeu. Você agora olha pra trás mais seguro, talvez até se aproveitando de uma fachada de uma canção mais alegre e tal, mas aí tem um contraponto. No início do disco, o narrador está em negação, tentando se agarrar àquilo e achar uma saída para fazer as coisas serem como antes, enquanto agora já aceita a sua situação real, mas isso não quer dizer que ele precisa ficar se prolongando nisso, tanto é que a música acaba de uma forma abrupta, como se dissesse: “Eu entendo, mas não quero e nem preciso ficar revisitando tudo isso”.

Porra, massa! Achei do caralho! Lindo demais o que você falou, cara. Muito foda!

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Que bom que você curtiu. Eu imaginei que não fosse uma ideia conceitual, mas, depois de ouvir o disco todo, a narrativa estava ali, intencionalmente ou não.

Eu fiz essa ordem [das faixas]… Bicho, nem pensei. Isso é muito bonito. Caralho! Vou contar pro Rogério e ele vai ficar arrepiado. Vai falar: “Estou chorando”.

 

“Eu acredito muito em energia.
Sou um cara espiritual, vamos dizer assim.”

 

Ao escutar o álbum, tamanha é a sensibilidade das músicas que imediatamente me veio à cabeça que as letras eram autênticas e que vocês realmente estavam sentindo aquilo que colocaram ali.

O começo do ano pra mim foi fodido. Eu tava bebendo muito—eu bebo muito—, mas eu estava muito, muito ruim, bicho. Não sei. Tinha manhã que eu não queria levantar da cama. Não estou totalmente curado, [mas estou bem melhor]. Agora eu tomo uma cervejinha pra dormir. E o Rogério estava passando por uma fase ruim também, estava meio perdido… E, bicho, o Hill Dreams meio que salvou a gente.

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Rogério (esq.) e João falam de suas influências ainda em 2016 (Reprodução/YouTube).

Mesmo que as músicas remetam a uma época complicada, vocês conseguiram encontrar nelas uma espécie de paz.

Te ajuda a virar a página. Eu tô felizão pra caralho agora!

No disco você fala muito sobre tristeza e emoções, e essas músicas acabam se agarrando a um elemento que é muito presente no folk e no country americano, que é o gospel. Você se considera um cara religioso?

Não, não sou de jeito nenhum. Eu acredito muito em energia. Sou um cara espiritual, vamos dizer assim. Mas religioso ao ponto de falar “Jesus” querendo me referir a Jesus mesmo, não. É mais uma alegoria de pedir ajuda, pedir graça. Não estou me referindo à figura católica. Muitos cantores, tipo o Gram Parsons, por exemplo, que é um herói para nós dois, ele fala muito de Jesus, mas… cagando. Acho que a gente presta mais atenção nisso, enquanto que eles falam e nem prestam. É mais da cultura deles, né bicho, ali do sul. Aqui no Brasil, se você falar Jesus em qualquer música, é música de Igreja.

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Você considera o Hill Dreams como um spin off, uma coisa só pra marcar esse momento mesmo, ou é um projeto que você pretende levar adiante e fazer mais shows, gravar mais discos e tal?

Com certeza. O Hill Dreams é a minha parada agora.

Eu imagino que vocês voltarão bem empolgados dessa turnê americana. Será que essa questão da distância, você no Espírito Santo e o Rogério em São Paulo, não vai atrapalhar vocês?

Rapaz, se a gente for chamado pra shows, a gente vai dar um jeito. O Hill Dreams é muito fácil de viajar. A gente vai dar uma rodada quando a gente voltar. O Lo-Fi que tá preparando outra turnê americana. O Rogério vai viajar pra caralho.

Vocês podiam aproveitar o bonde.

Véi, eu falei: “Mermão, eu vou com você e aí faz Hill Dreams e Lo-Fi”. Porra, bicho, eu tô muito empolgado/com medo dessa desgraça. Mas, segundo Rogério, “vai ser tudo tranquilo”!

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Ouça abaixo o álbum Shortcuts Through The Heart of Nowhere e acompanhe a turnê americana do Hill Dreams em seu Instagram.

Texto: João Depoli; Foto de capa: Fernando Yakota.

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