Gabriela Deptulski: “Nunca foi só música. Nunca vai ser!”

Numa conversa sincera e profunda, a multi-instrumentista, filósofa, cantora, compositora e produtora líder da banda My Magical Glowing Lens analisa seu último ano, os arrependimentos, as conquistas, os planos, a Filosofia, o ego e a música

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Gabriela Deptulski no making of do clipe de "Space Woods" (Crédito: Victória Dessaune).
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O mês de setembro já estava de saída e a cidade de Vitória via sua primeira segunda-feira ensolarada após um bom tempo caminhando ao lado daquele suposto friozinho do inverno capixaba. Estávamos sentados no sofá de uma casa um tanto quanto familiar pra mim, bem ali, no meio de Jardim da Penha. Eu de um lado e ela, Gabriela Deptulski, frontwoman do My Magical Glowing Lens, do outro. A claridade do sol de meio de tarde que vinha da janela entre nós evidenciava ainda mais a sinceridade daqueles olhos castanhos. Cativantes e acolhedores, transmitiam tanto serenidade quanto apreensão, como se tentassem decifrar o que estava diante deles. Mas quem poderia culpá-los? Para todos os efeitos, eu era um estranho e ela estava praticamente de chegada. Fazia poucos dias que se instalara ali, na casa de Fernando Zorzal e Francesca Pera, na nobre missão de produzir o primeiro álbum do casal como o duo Transe.

“Eu gosto muito daqui”, alegra-se Gabriela ao explicar a razão de ter trocado a terra natal de Colatina pela vida na capital capixaba, onde seus anfitriões agora se revezavam entre gravar um disco e cuidar do jardim ao lado da filha. “Eu conheci pessoas incríveis aqui que me deram a chance de trabalhar com elas de uma forma muito linda”, garante sobre trabalhos que envolvem desde os próprios lançamentos de sua banda — o homônimo EP de estreia em 2014 e o subsequente e elogiado álbum Cosmos (2017) — à sua participação no disco Sistema Feminino (2018), do quarteto de hip-hop Melanina MCs, e em trilhas sonoras de espetáculos de dança, como “Pedra”, da bailarina Ivna Messina, com direção de Carla van den Bergen.

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Em relação ao seu mais novo trabalho, Deptulski sabe muito bem o que lhe aguarda. “É uma responsabilidade muito grande”, confessa sobre a sua primeira investida como produtora musical de um disco de outras pessoas. “Eu quero traduzir o que eles querem falar com o conhecimento que eu tenho”, declara a respeito do modus operandi que tem assumido ao lado de Zorzal e Pera nas sessões de gravação que têm rolado no estúdio Funky Pirata, em Vitória. Mas ainda é cedo para falar sobre o Transe — eu tenho uma outra matéria preparada sobre eles e a primeira vez que os conheci, visitei e me inspirei, o que parece ter se tornado uma sensação recorrente para cada vez que vou àquela casa.

Agora fico com Gabriela e a hora que passamos por ali, um em cada canto daquele sofá, ao som de latidas, risadas e uma jovem família em seu jardim. Enquanto isso, falamos sobre a última turnê da My Magical Glowing Lens, o videoclipe de “Space Woods”, suas influências iniciais, a composição de trilhas sonoras, o caso Subtrópico, o efervescente cenário musical feminino, filosofia, identidade, ego, Cosmos, Gamana e mais. Aqui fica um alerta de ‘textão’, mas também um convite ao interior de uma das figuras mais instigantes da música nacional dos últimos anos.

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Gabriela Deptulski em show do My Magical Glowing Lens (Crédito: Filipa Aurelio).

João Depoli: Eu acho que a última vez que a gente se encontrou foi quando a MMGL tocou num dos showcases do Formemus e logo depois no Stone Pub, com as Alquimistas. Naquela época você estava partindo para uma turnê pelo sudeste e pelo sul do país, mas que acabou sendo interrompida no meio do caminho por causa de alguns problemas de saúde do Pedro [Moscardi, baixista]. Apesar disso, vocês conseguiram passar por várias cidades, fazer diversos shows e até mesmo uma participação no programa Experimente, do Multishow/BIS. Qual foi o saldo dessa turnê pra você?

Gabriela Deptulski: O saldo dela foi muito alto, porque acho que foi a primeira vez que eu toquei com uma formação com mais garotas do que garotos. Eram três mulheres e um cara e isso foi uma experiência inovadora pra mim, assim, conseguir reunir garotas que eu admirava aqui do estado, instrumentistas que eu já queria tocar há muito tempo numa gig só, sabe? E o saldo também foi positivo, porque acho que houve uma humanização da minha parte com relação a todo o processo de banda, porque você entender que, quando você tá viajando com pessoas, às vezes a gente faz isso de forma bem irresponsável, de, tipo assim, às vezes sair com uns cachês baixos que não vão garantir o rolê, sabe? Eu fico pensando que eu era muito responsável pelo Pedro naquele momento. Foi um problema de saúde que não foi por causa da viagem, ele poderia acontecer em qualquer lugar, mas ele aconteceu ali, então eu me senti muito responsável e eu não sabia o que fazer. Foi muito confuso, porque eu não sabia se o certo era eu continuar ou se o certo era eu parar, porque muitas pessoas estavam pedindo pra eu ir, principalmente o Adriano, que foi o booker lá no sul. Ele estava esperando a nossa chegada e ele é um amigo querido. As meninas foram grandes conselheiras pra mim na hora de decidir que eu não queria ir. Elas me apoiaram totalmente. Quando eu fiquei na dúvida, elas falaram: “Não, eu acho que é a hora de voltar”, e eu senti que isso era o certo e, sei lá, foi um baque muito grande. Da próxima vez que eu for fazer turnê, acho que eu vou fazer de uma forma muito mais responsável. Mas [ao mesmo tempo] é difícil, porque a gente ganha muito pouco, então como é que você vai esquematizar um rolê responsável quando você não ganha nem aquilo que vai cumprir esse? Se a gente não sai no zero a zero na parada, vai todo mundo pra divulgar o próprio trabalho. Isso é um costume que a gente tem e eu fico tentando fugir e ao mesmo tempo não consigo. A gente tem que encontrar meios, eu acho que é possível… Tem pessoas que conseguem, então por que a gente não conseguiria?

Depois de voltar, vocês fizeram alguns shows em Vitória, Guarapari e em seguida partiram para umas novas datas em São Paulo, sendo a última no Festival Circadélica, que acabou sendo cancelado em cima da hora. Embora vocês tenham arrumado um outro show para salvar a viagem, eu não consigo evitar de imaginar como eu me sentiria no seu lugar em situações assim, tipo: “Cancelado de novo? Será que eu realmente sirvo pra isso?”. Como você se sentiu vendo mais uma viagem ser interrompida?

Olha, aconteceu tanta coisa estranha comigo nos últimos tempos que na hora eu pensei assim: “Ah, tá… Mais uma vez” [risos]. Eu só fiquei muito preocupada com a grana: “Caraca, será que eu vou ter grana pra cobrir esse prejuízo?”. E a gente já tava lá, né? Foi a única coisa que me preocupou. Mas quando a Thaysa [Pizzolato, tecladista] deu a ideia da gente chamar a galera pra fazer [outro] evento, eu fiquei bem aliviada, porque pra mim a gente vai pra algum lugar pra tocar, sacou? É pra isso. Foi uma perda de divulgação muito grande. Isso também foi ruim… Mas eu também acho que isso não impede o meu rolê, sabe? E, se for olhar assim, está acontecendo coisa ruim pra todo mundo, porque a gente tá vendo que esse governo que tá no poder não se importa com cultura.  Ele quer tirar verba da gente, ele quer dificultar mesmo… Eu converso às vezes com as pessoas sobre ditadura e tal, e as que vivenciaram isso falam que a primeira estratégia foi minar a cultura e talvez isso esteja acontecendo agora também. Eu entendo pouco de política para falar sobre… Não sei, tá tudo muito difícil hoje em dia pra gente que é artista, talvez pra todo mundo, mas pra gente tá rolando muitas brigas, muitas intrigas e a dificuldade parece [estar ficando] maior.

E indo contra essa maré, você está no processo de gravação do videoclipe de “Space Woods”, a segunda faixa de Cosmos, que é fruto de um dos editais de música da Secretaria de Cultura daqui do Espírito Santo.

Quem teve a ideia de escrever o videoclipe foi o Gustavo Senna, que é um cara que eu conheço e admiro há algum tempo. Quando ele teve a ideia, eu falei: “Pô, com certeza, vamos escrever”. Eu nem tava esperando que fosse passar, saca? Porque eu sou um projeto muito novo ainda, né? My Magical é um projeto muito novo se for comparar com outros daqui do estado. Eu fiquei muito surpresa… muito surpresa! Foi muito bonito ter ganho esse prêmio. Foi meio que uma espécie de reconhecimento para com o trabalho que todo mundo teve com o My Magical, tanto a gente que trabalhou no Cosmos, que foi o trabalho de maior divulgação da banda, e também a galera que acompanha o projeto e que, sei lá, posta nos blogs, coloca em listas, sabe? Isso conta também. Foi algo que eu sempre cuidei bastante no My Magical.

 

“Eu descobri que a minha capacidade criativa estava muito presa dentro de mim e eu comecei a soltar isso com o My Magical.”

 

Eu vi umas imagens de uns cenários incríveis que vocês utilizaram nas filmagens e fiquei bem intrigado com o que está por vir. O que você pode dizer a respeito?

O roteiro do videoclipe foi escrito pela Mirela [Morgante] e pelo Gustavo, mas a história original, que foi modificada por eles também, é de um sonho que eu tive. É um sonho em que eu viajo até o espaço. Essa é a única coisa que eu posso dizer sobre esse videoclipe [risos].

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Tem uma coisa que eu acho interessante é que você veio de Colatina, no interior do Espírito Santo, e recentemente se mudou aqui para Vitória. Pela trajetória e natureza do seu projeto, eu sempre imaginei que você se mudaria para alguma outra capital, como São Paulo ou Curitiba. Por que você resolveu ficar por aqui?

Porque eu gosto daqui. Eu gosto daqui e eu conheci pessoas incríveis aqui que me deram a chance de trabalhar com elas de uma forma muito linda esse ano e nos anos passados também. Por mais que tenham acontecido coisas ruins no decorrer do processo, o saldo positivo é infinitamente maior que o negativo, sacou? Eu acho que a gente tem que expor as críticas, mas a gente também esquece de falar ‘bem’. Eu tenho esse defeito de me apegar muito às coisas negativas, já fui criticada em relação a isso e concordo. Mas… Sei lá, o My Magical não é colatinense, ele é de Vitória, sacou? Ele surgiu aqui. Os três primeiros singles que eu gravei foram aqui. A influência de gravar em casa veio do Will [Just], do Muddy Brothers. Eu falei: “Ah, não tenho equipamento pra gravar”, e ele disse: “Fala sério, coloca um fone no seu notebook e usa como microfone. Cola ele com fita crepe na caixa de som de guitarra e grava, sacou? Vai ficar massa”. Isso abriu minha cabeça, sabe? Gravei três singles e eu lancei aqui em Vitória, mas ninguém me dava ouvidos [risos]. Só os meus amigos mais chegados. E aí eu voltei pra Colatina, porque eu passei por uma crise muito intensa de troca da minha profissão. Eu descobri que eu não queria mais continuar na academia e que eu queria tentar a música. Sempre foi um sonho meu — não que eu não gostasse da carreira acadêmica, eu até sinto saudades —, mas foi muito duro pra mim também… O mestrado é muito pouco criativo e eu tinha uma vontade de criar muito grande, sabe? O mestrado era mais para repetir uma coisa que outra pessoa falou e eu descobri que a minha capacidade criativa estava muito presa dentro de mim e eu comecei a soltar isso com o My Magical. Na época, eu ouvia Tame Impala o dia inteiro e ao mesmo tempo ouvia muito Sonic Youth, mas aqui em Vitória eu falo com as pessoas do Sonic Youth e elas dizem: “Ahm?!” [risos]. São poucos os musicistas que têm essa referência do noise, de criar uma musicalidade que não é padrão e fugir mesmo. As primeiras mixes do Tame Impala são completamente fora do padrão de produção musical, sacou? Depois que [o Kevin Parker] aperfeiçoou os conhecimentos de produção musical que ele lançou o Currents [terceiro disco e o grande sucesso da banda]. Ele chegou a produzir single com a Lady Gaga; A Rihanna pegou um instrumental de uma música dele e colocou no disco dela… O cara se especializou mesmo. Aí eu peguei essa referência de mixagem do Tame Impala que era toscona, apesar de ter uma criatividade absoluta e equipamentos muito bons também… Às vezes eu falo que eu sou o “Kevin Parker latino-americano no vermelho” [risos]. Ele foi um cara que me influenciou muito e influenciou muita gente que gravava em casa a fazer suas próprias demos e lançar seu próprio material. Eu acho que ele foi um cara-chave na história da música mundial, sabe?

Aproveitando essa deixa sobre influenciar pessoas, um dos projetos que você se envolveu logo ao se mudar pra cá foi uma oficina de guitarra, pedais e gravação voltada apenas ao público feminino. O que significa pra você poder auxiliar no fomento à produção musical no cenário feminino daqui e talvez até inspirar outras pessoas?

Significa muito! Quem teve a ideia inicial fomos eu, a Letícia [Tomás] e a Hannah [Carvalho] da PWR Records e a Larissa Conforto [baterista da Ventre]. Nós fizemos uma ‘jam das minas’ numa casa de shows muito específica lá de Recife que é incrível. Essa ideia começou lá e, desde que eu tive contato com essas pessoas, eu comecei a querer me envolver mesmo com essa coisa direcionada só para as mulheres. A gente fez algumas turnês em que a gente fez umas oficinas, e eu me lembro de uma específica que era mista. A gente estava querendo arrecadar dinheiro por causa do carro do Pedro, que ele tinha nos emprestado, mas que quebrou — fundiu o motor. A gente estava super endividado e sem transporte, então eu dei a oficina e eu me lembro dos caras falando muito e das minas no cantinho, morrendo de vergonha de falar. Antes eu tinha um pouco de dúvida se tinha que ser só para mulheres mesmo, mas depois que eu passei por essa situação, eu falei: “Tem que ser”. A gente é ensinada que a gente não pode nem abrir as pernas quando a gente é pequena, porque existe a pedofilia, e não é só isso. A gente tem que parecer mocinha e tal. Os meninos podem jogar bola, podem se estrepar, podem fazer tudo e a gente tem que… Eu me lembro da minha mãe e da minha madrasta brigando comigo, porque eu era meio moleca quando era pequena, sabe? Eu tava descabelada, suada e pra chegar pra festa não pode. E toda essa coisa com meninas, que fez parte [da criação] de praticamente todas as meninas da minha idade, da minha geração e de outras também. Não é algo que as pessoas fazem conscientemente, não é uma educação que deram pra gente, não é culpa dos nossos pais, nada a ver com isso. É uma cultura mesmo que se criou e que eu tô tentando intervir nela, sacou? Aí eu comecei a me engajar com isso e quando eu vim aqui pra Vitória, eu vi que tava rolando uma movimentação de meninas e, tipo, as maiores gigeiras da cidade agora são meninas, sacou? Eu tava vendo essa movimentação de mulheres aqui e falei: “Eu tenho que fazer alguma coisa pra contribuir, pra fortalecer essas meninas”. E aí foi isso. Eu pensei que o que eu poderia doar era o meu conhecimento enquanto guitarrista e o meu conhecimento de produção musical, que ainda é muito pequeno — eu ainda sou uma produtora independente, meu conhecimento é muito minúsculo. Mas eu acho que, com o pouco que eu tenho, eu já consigo passar pra outras pessoas.

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Mais uma do making of do clipe de “Space Woods” (Crédito: Victória Dessaune).

E agora você está aqui para produzir o primeiro disco do Transe, tendo também recentemente trabalhado no álbum de estreia do grupo Melanina MCs, o Sistema Feminino (2018).

Eu gravei uma guitarra.

Que ficou muito legal!

Gostou? [risos]

Achei muito legal quando eu ouvi, porque ficou a sua cara. Por ser um grupo de rap, eu sabia que essa guitarra não poderia ter vindo de nenhuma das quatro [as MCs Afari, Mary Jane, Geeh e Lola]. Eu gostei muito desse disco, trouxe muita diversidade.

Sim, esse projeto foi incrível. É o que eu mais acho massa dos últimos tempos aqui em Vitória. Eu admiro tanto o trabalho do [Henrique] Paoli e da Karol [Alves] enquanto produção quanto o trabalho das meninas. Foram dois trabalhos que eu admiro que se juntaram e lançaram algo que, pra mim, sei lá, na minha bolha, é o trabalho de maior relevância que a gente teve dentro de muitos anos.

Ele está sendo bem elogiado.

Não só por estar sendo elogiado, mas por serem pessoas que são existências que são muito raras. Pessoas que trabalham além do que elas podem pra ser artistas e que tem um talento que é, sei lá, infinito, que é o dom da palavra, de saber se expressar de um modo, porque, velho, a gente do rock é muito abstrato, né? É aquela coisa meio egóica. Eu me reconheço muito assim, não estou falando só dos outros. E elas falando de coisas sociais, de coisas que interferem na nossa vida enquanto existência concreta, no dia a dia das pessoas, usando também a psicodelia, porque elas têm a linguagem muito abstrata da psicodelia. Me lembro da música “Maria Maloca”, que atinge um âmbito do ser humano que é esse âmbito da psique mesmo. Muito profundo, e elas conseguem fazer isso com um dom que eu vi em poucas pessoas até hoje.

Não é pra qualquer um, porque esse estilo foca primordialmente na palavra. Você pode remover toda a camada instrumental e o que tem que prevalecer é a palavra.

Eu vejo diferente, porque eu me lembro muito da Afari falando pro Paoli: “Ah, eu queria que fosse alguma coisa ancestral pra montar os arranjos”. A gente tem que reconhecer também, a gente enquanto produção musical… Por exemplo, quando eu comecei a produzir o trabalho do Transe, eu falei: “Bicho, eu quero traduzir o que eles querem falar com o conhecimento que eu tenho”. É uma responsabilidade muito grande, mas eu não quero induzir, eu quero traduzir, sacou? Eu sei que eu vou induzir também, mas eu quero que eles me induzam mais que eu induza eles, e eu acho que isso é uma tática interessante pra você não deturpar o trabalho de um artista, porque, pra mim, de onde surge a ideia, é de onde surge tudo. É ali que tá a fonte, sacou? Então quando você vai produzir alguma coisa com alguém, você precisa acessar aquela ideia, que a pessoa fale da música pra você, da história da música, que você saiba da história de vida da pessoa e de como ela vive, pra você conseguir entender aquela ideia como um produto daquela vida, sacou? E é assim que eu imagino e é a primeira produção de disco que eu faço fora o My Magical. Eu produzi a trilha pra “Pedra”, mas foi um trabalho totalmente individual e que também eu chamo de My Magical Glowing Lens, porque o My Magical, no final de tudo, sou eu. Então, como eu parei um período de produzir com banda pra produzir pra “Pedra”, eu achei interessante também integrar isso dentro do projeto, sabe? “Por que o My Magical não pode estar pra além do mundo pop? Por que ele não pode fazer trilha pra espetáculos de dança e teatro conceitual?”.

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Gabriela, verde, fumaça, discos e livros (Crédito: Giovanna Rosetti).

E de onde surgiu essa vontade de fazer trilhas sonoras? Qual a diferença de compor trilhas e compor músicas para um disco do MMGL?

Essa ideia de fazer trilha surgiu de um convite que o MIS [Museu da Imagem e do Som] me fez para fazer uma trilha pra “Alice no País das Maravilhas”. Só que isso não aconteceu. Foi feito um convite, eu mandei um orçamento e ele não deve ter passado [risos]. Mas desde essa época eu pensei que eu poderia fazer isso. Tinha uma época anterior também da gente fazer uma trilha pro filme do Alexandre Barcelos, um cineasta maravilhoso aqui do estado. A gente tinha pensado de fazer uma versão, um show experimental com a exibição do “UMA”, que é o filme dele, só que isso também acabou não acontecendo. Então essa ideia de fazer trilha no My Magical não é de hoje. Eu, por exemplo, já fiz trilhas pro grupo Marés. Elas produziram um dos eventos mais legais que eu já fui aqui em Vitória chamado “intervenção Ü”. Elas chamaram várias meninas, tinham várias exposições, foi um evento incrível. Elas gostaram muito de “Supernova” e uma outra música que se chama “Da Selva Pro Mar”, que é uma música eletrônica. Eu achei engraçado, porque foi uma que eu fiz sozinha e outra que é completamente banda, que eu levei pra todo mundo participar do arranjo e guardei um lugar pra cada um se expressar enquanto banda, porque eu tinha um projeto de transformar o My Magical numa banda, mas depois eu voltei atrás [risos] — mas isso ainda pode acontecer algum dia… Mas sobre a diferença… Cara, eu tava querendo trabalhar sozinha há muito tempo, sacou? Eu fiquei muito tempo trabalhando em grupo e eu gosto muito de trabalhar em grupo, não fiz isso contra a minha vontade — eu funciono melhor em grupo, eu rendo melhor em grupo, me sinto muito mais confortável trabalhando em grupo. Só que eu fiquei tanto tempo lidando com tanta gente que chegou um momento que eu esquecia o rosto das pessoas, porque você vai passando por várias cidades, conhecendo muita gente… Eu vim da Filosofia e, quando eu era criança, eu não gostava nem de ter amigos. Eu ficava muito sozinha pelo recreio, porque eu sou muito sozinha e, sei lá, esse processo da música que me reintegrou com as pessoas. Pela primeira vez eu senti que era possível poder fazer um trabalho em conjunto. Na Filosofia, isso não era possível. Eu tentei várias vezes fazer grupos de estudo, só que era todo mundo muito entranhado pra dentro de si.

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Eu sempre imaginei que fosse o oposto.

Nossa, não! Pelo menos no grupo que eu vivia, era muito fechado. São muitas panelinhas que se criam e o trabalho era bem pesado, porque você lê coisas que, sei lá, um cara de 60 anos escreveu pra você ler aquilo com 20 e o cara já escreveu 10 livros antes daquele, sacou? Então, pra você conseguir digerir aquele conhecimento que um cara de 60 anos está passando para você, bicho… é um processo existencial muito intenso. Me lembro que foi muito difícil na Filosofia, e eu lembro de todo mundo muito virado pra si por causa desse trabalho existencial. Cada um no seu templo específico e muita discordância. Você não podia fugir da sua linha de raciocínio, porque você tinha que escrever um artigo que corroborasse tudo aquilo, então você tinha que ficar focado ali e aí havia um rompimento entre as pessoas. A gente nem falava sobre filosofia direito quando a gente sentava pra trocar ideia.

A música foi meio que uma forma de você poder voltar a essa ideia de “quebrar barreiras” e de poder realmente criar alguma coisa, né?

É, e de poder criar em conjunto. Você conseguir criar em conjunto e ser possível todo mundo se sentir amparado… Só que não foi isso que aconteceu no My Magical, né? Foi a frustração no final de tudo… Eu acho que a galera que trampou comigo se sentiu muito desamparada e é uma conversa que eu tenho com eles… O quanto eu me arrependo do modo como eu fiz as coisas e o quanto eu poderia ter sido melhor. Mas foi o que eu pude também, sabe? Eu não tinha um conhecimento sobre produção musical e de trabalho em grupo. Eu não tinha esse conhecimento e foi o que eu consegui fazer, mas, ao mesmo tempo, tem o saldo positivo. Acho que a gente tem que se apegar a ele, que foi que todo mundo conseguiu muito reconhecimento através do disco e tal. A Subtrópico cresceu muito, conseguiu tecer muitos contatos viajando com o My Magical. As bandas que agora vêm de fora os reconhecem como um ponto de paragem muito por causa do trabalho que Gil [Mello] fez viajando junto do My Magical. O saldo foi positivo pros meninos também, que foram convidados para tocar em outros projetos. Sei lá, você vai no show do My Magical e vê eles tocando, se você tiver uma banda você vai querer chamá-los, porque eles são maravilhosos. Não tenho nem palavras para descrever o trabalho deles. Nunca que o Cosmos teria acontecido da forma que aconteceu sem a participação deles. Eu tava indo pra um caminho de gravar tudo sozinha de novo, então o Cosmos seria muito mais eletrônico e muito mais pop. Eu procuro elogiar muito cada um em seu trampo, sabe? Os conhecimentos que o Gil tem de engenharia sonora e de técnica de som, eu tinha zero. Eu aprendi tudo com ele, sacou? Ele grava muito bem, ele sabe como capturar o áudio, ele tem uma delicadeza muito grande para capturar os áudios da forma perfeita, sacou? Foi meu professor. O trabalho que ele faz, essas coisas que eu falo que aconteceram entre mim e a Subtrópico é muito para expor uma situação que acontece… Não é só a Subtrópico que faz isso. A Subtrópico fez isso comigo, mas muitas produtoras fazem isso com outros artistas, sacou? E eu fiz a denúncia e falo sobre esse assunto, porque acho que isso tem que parar. Não é só eles que tem que parar, tem que parar todo mundo.

 

“Não deixar que os nossos sentimentos ruins se transformem num buraco negro que suga a gente, mas que eles sejam uma possibilidade de abertura pro mundo.”

 

Você notoriamente é uma pessoa que tem opiniões muito fortes, já tendo falado abertamente sobre temas como aborto, feminismo, machismo e agora o último assunto foi realmente essa questão da produtora Subtrópico e dos créditos da produção musical do Cosmos. Para quem é de fora, foi algo estranho, porque já é algo relativamente antigo, mas que começou recentemente com algumas colocações esparsas até você fazer uma última publicação mais longa expondo todos os seus pontos. Quando essas coisas começaram a despertar sua atenção e por que você resolveu endereçá-las agora?

O que eu tenho pra dizer sobre isso é que esse foi o último post que eu fiz expondo essa história e qualquer história que eu viver na minha vida, porque eu sinto que o saldo desse post foi muito mais negativo do que positivo, sacou? Então eu não aconselharia nenhuma garota a expor a sua história na internet. Eu não acho que ela tem que ser julgada se ela quiser expor, eu acho isso um erro. Meu ato de expor isso na internet é porque foi um sofrimento tão grande, de eu vendo pessoas aqui em Vitória chegando pra mim e falando que não era eu que tinha produzido meu trabalho, sacou? E sempre foi eu que produzi o meu trabalho! Sempre fui eu que produzi a minha banda! Foi muito duro essas informações chegarem pra mim, falando que eu era só uma cantora e compositora sendo que eu nunca fui só isso. Eu sempre produzi os meus trabalhos, eu sempre arranjei meus trabalhos e, mesmo as versões demo que não tinham um arranjo, já tinham ideias de arranjo na minha cabeça. Eu sempre fui preocupada com essa parte de arranjo e produção musical. Ter lutado tanto por isso, vindo lá de Colatina pra ensaiar com uma banda aqui de Vitória, não encontrando parceiros de banda lá, vir montar uma banda aqui, fazendo essa movimentação árdua de vir com todo o meu equipamento todo o final de semana, desembolsando dinheiro com isso, pedindo ajuda pros meus pais, fazendo todo esse esforço existencial de ainda depender dos meus pais com vinte e tantos anos de idade e eles confiando em mim de que ia dar certo, autoestima baixa, carregando tudo de busão, fazendo todo esse movimento e ainda ir aos pouquinhos criando uma rede de contatos nesse trabalho de formiguinha, pegando pessoas de confiança pra tocar no seu trabalho, que não iam querer deturpar a sua ideia inicial e sim acrescentar, pessoas que vão te compreender enquanto produtora… Hoje eu vejo que eu fui a produtora do Cosmos, porque eu me lembro de insistir muito em várias paradas e eles não insistiam e isso gerava uma briga também, porque ninguém sabia o que era produtor musical e ao mesmo tempo eu atuava como produtora. Eu não sabia e ficava podando o negócio de todo mundo: “Não, não é assim”, “Faz assado”, “Pega essa referência aqui”, “Paoli, vê esse negócio aqui do Tame Impala”, “Gil, do Flaming Lips”, sabe? Pressionando e modificando as paradas que eles traziam, embora eles também diziam quando não gostavam. Só que, ao mesmo tempo, a ideia central… Como é que eu posso dizer? É como se fosse o diretor de um filme e cabe a você criar o todo, organizar o todo da coisa.

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E você é a diretora e não a editora, né?

Exatamente! Você tem que dirigir, não editar. E aí eu ficava tentando entender a referência deles e o modo como eles tocavam, pra tirar deles aquilo que eu estava imaginando. É um processo louco. Muitos dos beats que eu criei foram todos baseados na tocada do Paoli. Quando o [Rafael] Eskerda tocava comigo, nossa, “Space Woods” tinha uma versão específica pra ele, com várias viradas e as paradas barulhentas. Depois eu desfiz essa versão e fiz outra específica pro Paoli. Eu fiz isso depois que eu comecei a tocar com banda. Antes eu era do jeito que eu queria mesmo e foda-se, mas depois que eu comecei a tocar com banda eu comecei a pensar que eu poderia aproveitar a criatividade dos meus instrumentistas em vez de podá-los. Só que aí nesse processo todo mundo se envolveu muito e eu acho que eles viram pouco do meu trabalho, porque eu trabalhava muito em silêncio também. Eu nunca fui de ficar falando o que eu estava fazendo, sacou? Eu vou lá e trabalho. Criei ali um grupo com pessoas do Brasil inteiro que incluía a galera das gravadoras que se envolveram no lançamento, a nossa assessora de imprensa, os dois rapazes que me fizeram o convite de fazer o show de lançamento, um que pagou a nossa assessoria de imprensa, tinha a fotógrafa e diretora artística e tinha muito mais gente, e essa equipe toda fui eu que montei, sacou? Eu fazia isso tudo no silêncio, por mim mesma. Eu não ficava comunicando pra eles.

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Pedro Moscardi (esq.), Henrique Paoli, Gabriela Deptulski e Gil Mello na formação do ‘Cosmos’ (Crédito: Felipe Amarelo).

Parece fazer parte da sua personalidade.

Eu acho que faz, cara. E eu acho que foi um erro muito grande, porque aí eu vi que eles não estavam reconhecendo o que eu estava fazendo, sacou?

 

“Quem organiza as porra tudo é a mulher, sacou? A gente tem uma capacidade de organização e de fazer as coisas funcionarem no concreto e não só na ideia.”

 

Apesar de tudo isso, uma coisa que você mesma mencionou mais cedo é que no cenário local estão surgindo diversos grupos protagonizados por mulheres. O que você está achando dessa movimentação intensa dessas mulheres nesse ano? Elas estão cada vez mais presentes, têm gravado cada vez mais discos e inclusive os shows mais legais da cidade são os delas.

Aham [risos]. Eu acho que a gente ficou no armário muito tempo por causa de uma repressão muito grande que acontece com as mulheres mesmo e porque a gente não conversava umas com as outras. Eu sinto isso no grupo de amigas que eu tinha. Esses assuntos de feminismo, por exemplo, a gente não conversava uma com a outra, sabe? Eu lembro que eu sofri um relacionamento abusivo quando eu tinha uns 18, 19 anos e eu não contei pra ninguém, porque eu achava que eu que tinha feito tudo dar errado, sacou? Imagina passar por um relacionamento abusivo no qual você acha que você está louca, que você está fazendo tudo errado, que é por causa de você que o relacionamento está dando errado, que o cara está sendo agressivo com você, porque você está fazendo coisas e erradas… e você não tem ninguém pra conversar e guarda isso tudo pra você? Isso não existe! Foi pesado pra mim e não fui só eu que viveu isso. Muitas meninas viveram. Essa coisa do relacionamento abusivo é uma interpretação recente, que eu acho que é uma interpretação um tanto quanto incompleta ainda — a gente está aperfeiçoando ela, né? Eu acho que a pessoa que é abusada também abusa, sacou? E é um ciclo, só que a mulher acaba em desvantagem, porque a gente tem menos força social. E por que que tem essa coisa de boicotar e isolar a mulher? É porque ela tem uma força muito grande! Você pensa, culturalmente, a gente é que é a chefe da casa, né? Todas as mulheres que eu conheço da geração da minha mãe e da minha madrasta, quem cuida das finanças da casa, quem organiza as porra tudo é a mulher, sacou? A gente tem uma capacidade de organização e de fazer as coisas funcionarem no concreto e não só na ideia. A gente tem uma capacidade muito grande de organização e de multitarefa, sacou? Eu cheguei a fazer setes funções no My Magical — eu não sei como eu não fiquei doida. Não sei como eu não explodi.

Você chegou a mencionar que gostaria de ter uma banda formada só por mulheres. Você acha que ainda existe a chance disso acontecer ou você desistiu e pretende seguir com formações itinerantes?

Não, eu acho que isso ainda vai acontecer. Acho que é um pouco inevitável, porque eu tenho tido cada vez mais contato com mulheres. Eu era uma pessoa que tinha só amigos e agora que eu descobri o que é ter amizades femininas. Como está muito crescente a cultura da produtora e da instrumentista, está cada vez surgindo mais gente. Eu acho que pela primeira vez a gente se colocou numa posição de que a gente pode fazer. Foi a primeira vez que a gente mesmo se permitiu a falar: “Não, a gente é capaz. A gente é tão boa quanto eles e, dependendo, até melhor”. A gente ganhou essa autoestima pra fazer as paradas e, quando a gente se organizou, aí já era. Realmente, dos últimos shows que eu vi, os shows das bandas com mulheres são muito melhores, e eu não sei o porquê. Eles têm se tornado muito mais interessantes, porque têm uma energia diferente, né? Traz coisas novas, coisas que nunca foram ditas, tipo as letras da Carne Doce. Imagina o que que é a Salma [Jô, vocalista] pra mim, por exemplo, que passei por um relacionamento abusivo? [Imagina] ouvi-la cantando aquelas letras e reconhecendo que eu vivi coisas parecidas com as dela e poder vê-la enquanto uma porta-voz? Ela falando isso sem medo numa banda cheia de homens com o [próprio] marido dela na banda, e ela falando de todos os temas possíveis com uma coragem inigualável. Saber que a gente pode ter hoje no Brasil uma representante feminina no rock dessas, sei lá… A gente ficou muito tempo calada, sendo backing vocal, assessora de imprensa e qualquer função de coadjuvante e nunca de protagonista. É a primeira vez que a gente achou que merece esse papel e a sociedade está aceitando. Tá rolando mesmo e aqui em Vitória tá explodindo.

Tem alguém aqui com quem você gostaria de trabalhar?

Melanina eu queria trabalhar de novo… tenho muito interesse. Pra mim seria uma honra, porque eu ando ouvindo mais hip-hop do que rock. Preta Roots também, são duas minas que eu admiro muito. Eu acho que a Dan Abranches também tem crescido muito, tem feito umas composições lindas… A Gabi Brown… Gostaria de fazer algo com a Gabi. Acho que com a GAVI também. Nossa, tem muita gente!

Voltando à sua fala sobre a Salma da Carne Doce, você teria vontade de talvez também se tornar uma porta-voz?

Olha, eu já tive essa vontade… Hoje em dia eu não tenho mais não. A vontade que eu tenho é de expressar. Tipo, o My Magical surgiu de um fora que eu tinha levado de um cara e eu queria transformar esse sentimento de rejeição que a gente sente depois que leva um fora e tá completamente apaixonado pela pessoa — e você quer ficar em posição fetal pra sempre, não sei o que que acontece. Eu queria me livrar desse sentimento e eu falei: “Eu não preciso sentir esse fora que eu levei. É só um fora, eu vou ser feliz no meu caminho e ele vai ser feliz no dele. Mas eu quero transformar isso num sentimento bom”. E aí eu fiz “All Right”, que foi a primeira música do My Magical. “Você não gosta de mim e tá tudo ok, tá tudo bem”. É uma música super pra cima e o My Magical surgiu pra isso: pegar todos os meus sentimentos ruins e enfeitá-los de tal modo que eu conseguisse transformar aquela energia conturbada e tenebrosa que faz a gente ficar pra baixo e clarear ela, dar uma luz nela e limpar mesmo — não sei se ‘limpar’ é a palavra, eu acho que é ‘elevar’. Não deixar que os nossos sentimentos ruins se transformem num buraco negro que suga a gente, mas que eles sejam uma possibilidade de abertura pro mundo e que a gente utilize o nosso sofrimento pra atingir alguma coisa pra além do que a gente já se aprendeu, sabe?

Nesse contexto, você chegou a fazer uma publicação sobre aquele que será o seu novo álbum, falando sobre como o Cosmos tinha uma visão “de dentro para fora” e que dessa vez você pretende empregar um temática “de fora para dentro”. Como você enxerga isso?

Foi essa coisa egóica que eu falei do rockeiro existencialista que ouve Radiohead, Nirvana, Deftones, sei lá, não importa a banda, mas esse rockeiro egóico, depressivo, que não consegue olhar pra fora, que não vê o outro na sua frente. Todo mundo tem seu sofrimento, todo mundo tem as suas dores e a gente tem que saber disso, né? Eu me sentia assim, num processo de egoicização de mim mesma muito pesado, porque eu entrei na música muito cedo. Comecei tarde, mas entrei no mercado musical muito rápido, e tive que construir uma imagem pra mim muito rápido e sem saber lidar comigo mesma, sacou? E agora eu estou querendo voltar. É engraçado que My Magical surgiu quando eu estava aqui em JP morando sozinha e agora estou em JP produzindo — não, eu não estou produzindo, estou compondo. Pra não criar expectativa, ainda vai demorar um pouco, porque eu sou lerda pra produzir. Do EP pro Cosmos demorou um tempão e esse aqui vai demorar também. Uns dois anos pelo menos — um já foi, mas de dois não passa! Teve um tempo que a Francesca usou uma conversa nossa, que foi assim: “Foi quando eu me tornei humana” [risos]. Tipo assim, como se ela tivesse passado por um processo de transformação e foi assim que eu me senti, sacou? Como se eu não fosse algo humano antes de todo o processo do Cosmos, e depois disso eu me tornei humana, que é no sentido de ver o outro como um ser humano mesmo, que sente dores, e dores provavelmente mais profundas que as minhas, e não fala, porque às vezes não tem nem a capacidade de expressar através das palavras a dor que sente. Foi por isso que eu falei que é “do cosmos pra dentro”, porque eu não quero mais entender o meu dentro como um dentro fechado que olha pro outro, eu quero entender que o outro já faz parte. Se o outro do meu lado não estiver bem, eu não vou ficar bem. Não existe essa possibilidade. A primeira música composta para o disco foi composta para uma outra pessoa, [sobre] o sentimento de uma outra pessoa, então já começou externo, sacou? As duas primeiras composições foram feitas para outras pessoas, uma com um problema interno e a outra, uma amiga minha que tinha vivido uma série de situações muito difíceis, e eu fiquei muito sentida, como se quase fosse comigo. Eu nunca tinha vivido nada parecido e eu queria de alguma forma que ela se sentisse melhor e aí eu fiz uma música pra ela. E foi daí que começou a surgir toda a pira do Gamana, foi dessa música pra essa amiga que eu admiro infinitamente que é a Gaivota Naves, das bandas Rios Voadores e Joe Silhueta.

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Então agora você está focada nas composições do Gamana, o novo álbum, depois de ter começado nessa ponte entre Colatina e Vitória, gravado um EP no seu quarto, lançado um disco super elogiado, tocado em diversos festivais, feito turnês que rodaram o país, ter sido elogiada por caras como Marcelo Gross [ex-Cachorro Grande] e Danger Mouse… O que ainda falta pra você alcançar?

Eu acho que o ponto que eu quero chegar é que meu trabalho tenha importância para outras pessoas e não só pra mim. Eu estava indo muito pra um caminho assim, eu não sei se muito, talvez pouco, mas eu via que pra eu começar a traçar esse caminho estava faltando pouco, sacou? Agora eu estou querendo fazer uma parada completamente diferente, algo que não tem muito a ver com a minha carreira… É porque é muito difícil, a gente ganha muito pouco, essa que é a verdade. No mercado musical circula muito pouco dinheiro e eu acho que a gente também é responsável por isso, porque a gente procura parcerias que não giram dinheiro, mas às vezes a parceria que gira dinheiro é opressora, sabe? É muito difícil, mas eu acho que, pro futuro, o que eu almejo é trabalhar de uma forma mais prazerosa, onde todos se sintam contemplados dentro do projeto. Não ter tanta pressa. Não precisa dessa pressa toda, dessa ganância, sabe? Eu descobri que o importante é você trabalhar com pessoas que entendem a sua proposta e que estejam satisfeitas de trabalhar do modo como você trabalha, sacou? Todo mundo tem que estar confortável com aquilo e as coisas que estão desconfortáveis a gente tem que ter respeito o bastante um para com o outro pra poder conversar sobre isso. O que eu tenho aprendido ultimamente é nutrir respeito pelas pessoas. É importante exigir o respeito — e eu fui muito desrespeitada porque eu não me dava o respeito — e dar o respeito pras pessoas. É entender que, quando eu for fazer uma turnê, se o projeto é meu, então a responsabilidade é minha de todo mundo estar bem ali. Também é entender que, se tem instrumentistas trabalhando comigo e eu quero, por exemplo, arranjar tudo e só passar pra eles no final, eu tenho que saber se eles estão confortáveis com isso. Então, se eu realmente quiser seguir nessa coisa de arranjar tudo, que é uma coisa que eu almejo mesmo, não sei se o próximo álbum vai ser com banda. Eu queria muito passar pela experiência de banda — passei no Cosmos, né? A gente fez o álbum como banda, todo mundo ali arranjou as músicas. Eu cheguei com as demos pré-arranjadas, mas o meninos deram muito ideias. Eu sou muito grata pelo conhecimento que eu aprendi com eles, todos eles. São pessoas tão potentes, tão criativas e sem eles eu não conseguiria ter a segurança de hoje falar, tipo assim, que o próximo álbum do My Magical eu quero gravar sozinha, sacou? Fazer um ano de bateria e gravar as baterias também, porque é um sonho meu, sabe? E é um direito meu de ter esse sonho. Não é por isso que eu sou egoísta. É porque eu tenho essa vontade de criar todos os instrumentos e eu gostaria de exercê-la. Aí eu estou nesse processo de me aceitar também, de entender que eu não sou egoísta fazendo isso e é só uma coisa que eu gosto. É o que eu quero pro futuro do My Magical, que a gente consiga criar uma espaçonave mais confortável para todos. Mas, se eu não conseguir isso, eu vou seguir me apresentando sozinha, que é o que eu estou fazendo muitas vezes. Ainda tenho que conversar muita coisa com Paoli, com Pedro e com Thaysa, que são a minha banda oficial, pra entender se eles estão confortáveis. Pra entender o que que eles são nesse processo e não passar por cima deles, porque, enquanto produtora, a tendência é que eu faça isso. Tem tanta coisa pra eu me preocupar pra fazer o projeto girar que às vezes você não enxerga a pessoa que está do seu lado. E aí, pro futuro do My Magical, a única coisa que eu quero é isso. Eu não quero nada além de trabalhar de forma confortável, onde todo mundo se sinta confortável. E com relação à parte existencial do My Magical, nunca foi só música. Nunca vai ser! Quando você toca, você já tá transformando alguma coisa. A sensação que dá é que é uma coisa sagrada mesmo.

Transcendental.

É! Muito transcendental! Muito pra além, né? Música te leva pra ambientes dentro da sua cabeça que parecem reais, te fazem arrepiar e te fazem chorar. O que que é isso? Que poder é esse que essa parada tem? De onde isso vem?!

Texto: João Depoli; Foto de capa: Victória Dessaune.

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