'Não sei se soma ou ausência': Sensações, suavidade e contemplação na estreia do Mudo

Projeto dos músicos Gil Mello, Pedro Moscardi e Henrique Paoli lança EP com três canções já em meio a promessa de um sucessor

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Mudo lança o EP 'Não sei se soma ou ausência' (Reprodução/YouTube).
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De um lado está Gil Mello, um dos cabeças por trás da produtora Subtrópico e também ex-integrante de grupos como Sol na Garganta do Futuro, Mango e My Magical Glowing Lens, além de atuar como produtor musical, tendo recentemente trabalhado com o power trio Moreati em seu primeiro álbum, Algum Lugar (2018).

Do outro está seu “parceiro de longa data e infinitas gigs”, o baixista e tecladista Pedro Moscardi, notório pelo seu trabalho na The Single Malt (ou apenas TSM, sua banda principal) e por passagens pelo Muddy Brothers e MMGL.

A essa mistura, acrescente um dos melhores bateristas do circuito capixaba, o gigante Henrique Paoli (André Prando e Melanina MCs), e você agora tem a fórmula que resultou em Não sei se soma ou ausência, o EP de estreia do grupo Mudo.

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Pedro Moscardi (esq.) e Gil Mello batem um papo no Subtrópico (Reprodução/YouTube).

Lançado no dia 9 de novembro, o registro foi gravado em Vitória ainda no mês janeiro, no interior da onírica e saudosa Casa Verde — antes, é claro, que as impiedosas chuvas do início do ano comprometessem suas estruturas físicas, obrigando seus residentes e frequentadores assíduos a buscarem por um novo refúgio, tanto habitacional quanto cultural.

“Depois de três anos intensos na Casa Verde, 2017 foi um período de mudanças significativas. Uma delas foi ressignificar a saudade que tinha de pessoas queridas. Compor partindo de algo mais próprio num processo solitário foi o meio para compreender a mudança que queria passar”, me disse Gil sobre a gênese do projeto quando o entrevistei ainda em julho. “A inspiração para criar a Mudo nasceu mais da necessidade terapêutica da música de dar conta da existência — a minha nesse caso”.

Segundo o músico, a saudade é a grande temática que amarra as três faixas do EP: “Volta”, Vai” e “Fica”. Seus próprios títulos remetem àqueles desesperados choros que escapam de nossas bocas sem qualquer tipo de filtro quando nos deparamos com o inevitável fim de algo que um dia nos foi muito querido. Quanto a isso, Mello é enfático: “Não a saudade como um sentimento por algo que se perde ou está distante, mas a ausência enquanto manifestação dela — algo que se ganha e lhe é próprio”, explica. “Talvez seja melhor pra se ouvir de olhos fechados e certamente para aproximar distâncias e afetos”.

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Na verdade, esse disco tem que ser escutado de três formas — acredite, eu fiz o teste. A primeira, como já foi sugerido pelo próprio autor, de fato é de olhos fechados. Desse jeito, as sinapses do ouvinte são condicionadas a encontrar uma brecha para se emaranharem às nuances sonoras e líricas propostas, sujeitando-se a quaisquer variações impostas pela banda.

Em seguida, é interessante que uma audição seja feita enquanto se assiste ao vídeo captado e editado por Heitor Righetti, no qual Mello e Moscardi batem um papo em meio a fumos, sorrisos e diferentes ambientes do atual quartel general do Subtrópico. Nesta alternativa, a experiência assume um caráter contemplativo, como se esperássemos uma reação da dupla ao que estamos ouvindo — embora no fundo saibamos que isso não vai acontecer.

Por fim, como um bom amigo me disse, a terceira audição deve envolver projeções visuais abstratas, permitindo que as canções flutuem pelo desconhecido, se adaptando ou não às diferentes formas e cores que lhe são impostas, deixando no ouvinte constantes sensações de conflitos e resoluções. “Transparecer fragilidades ao invés de apresentar algo muito afirmativo”, pontua Mello, que cuidou das músicas, arranjos, guitarras, bateria eletrônica, gravação, edição, mixagem e masterização do trabalho — além de já prometer um sucessor: “Não vai tardar para sair”.

Mas que fique bem claro, esse não é um EP de psicodelia atmosférica pop cheio de canções delineadas em passagens de verso/refrão/verso/refrão bem definidas e de fácil digestão — não que isso seja ruim, mas simplesmente não vem ao caso. Não sei se soma ou ausência é uma espécie de viagem sensorial que busca por “profundidade e intensidade e não por algo que pareça sólido e forte”, como ressaltou muito bem seu autor. Suas músicas são ao mesmo tempo incrivelmente longas e delicadamente gostosas de serem ouvidas, todas numa pegada leve, contemporânea, suave e quase que atmosférica.

 

“Depois, que você partiu/ Deixando o que tinha/ Eu só queria, de novo/ Te ouvir por mais um dia.”

 

Logo em sua abertura, um dueto com a cantora Katherine Finn Zander (Katze e Cora) dá uma nova dimensão às súplicas de Mello. Na sequência, “Vai” é marcada por uma espécie de melancolia épica com um doce vocal arrastado e desesperançoso entregue por Moscardi. Logo depois, o EP chega ao fim com “Fica”, uma faixa mais soturna e agoniante que traz Gabriel Ventura (Ventre, Posada e o Clã) nas guitarras.

A suavidade na progressão dos arranjos se assemelha a uma exultante sobreposição de boas memórias naqueles dias em que elas resolvem vir à tona sem motivo aparente. Me trouxe o alívio de uma triunfante rajada de vento numa ensolarada tarde de verão (que pode muito bem ser um dia como qualquer outro na capital capixaba).

Se ausência, eu não sei… mas definitivamente soma!

Texto: João Depoli; Foto de capa: Reprodução/YouTube.

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