Traduzimos a entrevista de Gabriela Deptulski (MMGL) ao Super World Indie Tunes; Veja

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Foto de capa: Hannah Carvalho/Divulgação.
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No início desta semana, a banda colatinense My Magical Glowing Lens compartilhou a entrevista que Gabriela Deptulski, sua líder, vocalista, guitarrista e idealizadora, cedeu ao site irlandês Super World Indie Tunes. Impressionado com o seu conteúdo (que naturalmente está em inglês), pensei em traduzir a conversa para que todos os fãs da banda pudessem ter acesso.

Antes disso, eu entrei em contato com o site via e-mail para verificar questões legais de reprodução de conteúdo — sinceramente esperando uma rápida negativa ou um silêncio constrangedor. No entanto, eu quase que instantaneamente recebi uma reposta deles: “sem problemas, fique à vontade para usar a entrevista. Nós somos grandes fãs da banda.” A música realmente rompe barreiras!

Confira abaixo a conversa que o Super World Indie Tunes teve com essa incrível frontwoman, que inclusive acabou de anunciar sua participação no Festival Saravá, em Florianópolis, no dia 09 de Março!

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Foto: Reprodução/Instagram.

Super World Indie Tunes: Quando começou a sua jornada musical?

Gabriela Deptulski: Ela começou no piano, flauta e teclado, mas o violão e a guitarra foram os primeiros instrumentos que eu realmente me dediquei. Mais tarde, eu estudei baixo e bateria. Minha jornada como produtora musical começou quando eu era adolescente. Eu me lembro de compor sozinha uma música com bateria e guitarra. Algo me disse que isso era o que eu deveria fazer até o fim da minha vida.

Qual foi o primeiro trabalho musical que você amou e por quê?

“Nevermind”, do Nirvana, porque ele deixou minha mente livre, completamente livre. Eu lembro de sentir o meu eu interior realmente livre pela primeira vez.

Qual é a sua composição própria favorita e por quê?

Difícil dizer… Talvez “Supernova”, porque ela é uma canção tão misteriosa. Eu não sei o que ela quer dizer ou como eu a fiz. Eu amo o fluxo da melodia e como eu me sinto livre quando canto “eu vou voar daqui pra me lembrar. Eu vou me afastar pra me aproximar de mim, ir mais além, imaginar” Eu não sei o que essas palavras significam, mas eu sinto que elas são muito importantes.

“Cosmos” é um dos nossos álbuns favoritos do ano passado. Você está feliz com a recepção que ele teve?

Muito obrigada por recebê-lo dessa forma. Eu estou realmente feliz em ouvir isso e eu sempre fico muito feliz e surpresa toda vez que escuto isso de uma forma sincera. Sempre pensei que ninguém entenderia o que eu estava expressando com minhas canções. Saber que as pessoas poderiam sentir e entender os mesmos sentimentos me fez mais feliz e menos solitária.

Você disse à Rolling Stone que “tudo o que foi produzido para este álbum veio de visões, sonhos, sensações sobre outras dimensões” — você pode explicar um pouco sobre o seu processo criativo?

As músicas simplesmente surgem. Se eu as forçasse, elas me escapariam… Quando elas vêm, elas vêm numa viagem, num passeio, quando eu estou dormindo ou quando estou sentindo algo muito forte e intenso por algo ou alguém, sem que eu possa controlar. Na maioria das vezes, a música vem com um arranjo e um forte senso de estética. É como se um ser de outra dimensão a sussurrasse pra mim. Teve uma vez (com “Space Woods”), que a letra e a melodia vieram de uma só vez. Eu estava sentada numa cadeira depois de ouvir o disco It Feels Like Space Again, do Pond. Eu estava bastante impressionada com o que o álbum gerou na minha alma e então comecei a ouvir uma melodia, bem baixa, e eu simplesmente tentei entender o que essa canção estava me dizendo… Eu peguei meu violão e comecei a tentar encontrar um acorde e a música veio a mim como um todo, completa. Eu também me lembro quando compus “Sideral”, eu estava tentando apenas imitar as músicas do espaço com minha guitarra e pedais…

Quanto tempo demorou para você completar o álbum?

Dois anos! Foi um período muito longo e estranho. Quando eu pude dizer que tinha todas as músicas, eu mal podia acreditar. Mas eu tinha certeza de que elas se tornariam um álbum, todas pertenciam à mesma semente.

Como a banda se formou?

Eu não tenho uma banda, eu tenho várias bandas. Eu convido as pessoas a virem comigo na nave MMGL. Eu recruto astronautas para me acompanharem em minhas missões pelo espaço.

Que música de outro artista você gostaria de ter composto e por quê?

Eu não sei… “The Burning of the Midnight Lamp”, do Jimi Hendrix. A forma otimista com que ele aborda a solidão e a angústia é extremamente doce e revigorante.

Qual(is) artista(s) tem sido uma grande influência e em que forma?

Difícil dizer… Eu realmente não sei. Eu me lembro de tantas pessoas que me fazem sentir livre por dentro. Pessoas cujas canções me fazem sentir como se eu não estivesse sozinha. Artistas que me fazem sentir como se eu estivesse em boa companhia quando os escuto.

Qual a melhor banda nova que você escutou recentemente?

Eu não sei. Eu tenho escutado os sons do mundo. Os sons da água, do vento… os sons cósmicos que me vêm. Sons de máquinas. Canto dos pássaros… os sons das plantas e das coisas. Muitas coisas… Mas recentemente eu tenho escutado muito Boogarins.

O que tem te animado no cenário musical brasileiro?

Mais garotas no mundo da música!

Como você tem se sentido em relação à situação política no momento?

De alguma forma, eu protesto quanto a isso em cada show. Eu não concordo com as medidas que o governo tem tomado, parece que eles querem manter os pobres na miséria e aumentar a nossa economia às custas do trabalho duro das pessoas pobres para enriquecer poucas pessoas que farão “a economia melhorar”. Eu não acho que essa seja a melhor forma de se conseguir um país melhor. Agora nós temos menos cultura, eles estão fechando clubes independentes e bares. Eu não acho que eles estão fazendo isso para manter nossa segurança, me parece que eles nos querem fora das ruas, longe do entretenimento e da cultura, de forma a nos deixar tristes e assustados em nossas casas. É como se eles quisessem que nós trabalhássemos como robôs apenas para manter a desigualdade social. Eu também não concordo com o conservadorismo dos governantes. Eu apoio a legalização das drogas e do aborto e pra mim é muito claro que nós devemos seguir a sexualidade que quisermos — não existe nenhuma “cura para a homossexualidade” como eles têm dito, porque homossexualidade é linda e normal. A religião ainda influencia nossas decisões políticas. Ela tem nos feito sexistas e estúpidos. E o atual governo, além de NÃO ter sido democraticamente eleito (eles tomaram o poder político), agora está tomando medidas que são danosas para a maior parte da população. Eles são autoritários, conservadores e unilaterais. Eles querem manter um tipo de sociedade que as pessoas já se cansaram há muito tempo… As pessoas querem mudar, você pode ver isso em seus olhos, você pode ver nos olhos dos seus amigos, você pode ver em seus próprios olhos… E eles só querem manter o próprio poder e seguir adiante com seus interesses egoístas sobre “família tradicional” e “valores tradicionais”. Eles não conseguem abrir mão de seus desejos mesmo quando a maioria das pessoas almeja o exato oposto. Tem sido bem assustador e nojento. Eu amo este país, mas têm sido tempos terríveis de se viver por aqui.

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Foto: Aline Deptulsky Fotografia.

Você acredita que artistas têm responsabilidades sociais em tempos como este?

Sim! Nós somos figuras públicas, podemos dizer às pessoas que elas não estão sozinhas com seus sentimentos de repressão. Isso é muito importante…

Qual é a sua ideia de sucesso?

Ser feliz e fazer todos ao meu redor felizes…

Qual pergunta você gostaria que lhe fosse feita mas que nunca é e qual seria a sua resposta?

Pergunta: Qual é o seu sonho? Reposta: Que todas as pessoas pudessem viver completamente em paz …

Quando podemos esperar novas músicas suas?

Eu não faço ideia. Mas você pode esperar coisas diferentes, algo que você nunca ouviu antes.

Texto original: Super World Indie Tunes; Tradução: João Depoli; Foto de capa: Hannah Carvalho/Divulgação.