Fúria, assassinato e resistência: Whatever Happened to Baby Jane lança ‘Luz Del Fuego’

Com um álbum nomeado em homenagem à dançarina, escritora e feminista cachoeirense Dora Vivacqua (1917-1967), Lorena Bonna e Vanessa Labuto mostram o que a Whatever Happened to Baby Jane tem para oferecer

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Foto de capa: Lorena Bonna e Samuel Cruz.
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Nada mais apropriado do que esperar a nossa 666ª publicação deste ano para anunciar Luz Del Fuego, o primeiro álbum de estúdio da Whatever Happened to Baby Jane. Recheado de influências do movimento riot grrrl—como as gringas L7 e Bikini Kill e as brazucas Ostra Brains e Dominatrix—, o registro enaltece ainda mais a natureza expurgativa do trabalho de Lorena Bonna (voz e guitarra) e Vanessa Labuto (voz e bateria).

Sucessor do EP Inferno de Vida (2017) e do single Dolores (2018), o disco saiu na última sexta-feira (31), numa parceria entre os selos Läjä Records e Forever Vacation Records. Foram vários meses de antecipação, uma reformulação na banda, um alucinante show de pré-estreia no Stone Pub, uma viagem para São Paulo e uma volta triunfal para que então o álbum pudesse ser lançado. No próximo dia 15, Luz Del Fuego inclusive ganhará um show de lançamento na segunda edição do Läjä Festival—onde ele também será disponibilizado em CD.

“Não temos palavras pra descrever sentimentos neste momento”, desabafou a dupla na véspera do grande dia. “O que resta são os nossos sincerões agradecimentos a todo mundo que nos deu suporte durante todo esse processo, que colou junto nos shows (inclusive pessoal que colou no show em SP) [e] que de alguma forma passou um pouco de vontade pra nós”.

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Segundo o próprio duo, o álbum foi gravado numa odisseia de três dias na gélida capital paulista. Por lá, Luz Del Fuego foi literalmente domado no Estúdio Costella, o lendário covil da gravação underground de São Paulo. “Sobrevivemos”, comemoraram Bonna e Labuto ao final desse intenso processo, que inclusive lhes rendeu um show com o grupo We Suck As A Band—poucas horas antes de seu retorno ao Espírito Santo. “Estúdio Costella agora tem cheirinho de nossa casa também”.

Quem também saiu vitorioso desse processo foram os próprios produtores, Fabio Mozine (Mukeka di RatoMerda e Os Pedrero) e Alexandre Capilé (Sugar Kane e Water Rats). “GRAVAMOS PORRA!!!! PORRADEIRO DOIDO”, esbravejou contente o sempre bem-humorado Mozine. “Mais um filho no mundo! Tive o prazer de produzir, gravar, mixar, masterizar e lançar ao lado do meu irmão Mozine esse duo sinistro”, publicou Capilé orgulhoso. “Não poderia estar em melhores mãos. Obrigada Mozine e Capilé pelo carinho”, retribuiu a banda.

Mas agora vamos ao que realmente interessa: as onze canções que compõem o conjunto da obra do incandescente e impetuoso Luz Del Fuego.

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Vanessa Labuto (esq.) e Lorena Bonna estreiam com ‘Luz Del Fuego’ (Crédito: Karina Loyola).

O disco já abre com uma porrada, “Burn”, a tradicional canção de abertura de suas apresentações ao vivo. Na sequência vem o instrumental “Menarca”, que não só refere-se à primeira menstruação, mas também à primeira música composta pela Baby Jane. Para criar um contraste simbólico, ela é então seguida pela dançante “Laura”, a última faixa escrita para o álbum.

Finalizada a tríade de abertura, Luz Del Fuego segue com “Tomboy”, um desabafo sobre identidade de gênero. “I don’t wanna wear dress, short skirts no more/ I don’t wanna use lipsticks no more/ I don’t wanna use short dress no more/ I don’t wanna ‘sit like a lady’”, ruge Labuto em meio a toda essa angústia e fúria.

Com Lorena de volta aos vocais vem a decadente e hedionda “Inferno de Vida”. “Eu hoje acordei de ressaca”, vocifera a guitarrista como se fosse a própria personificação da mais brutal ressaca do mundo—tudo isso após um cômico convite retirado de algum daqueles áudios de Whatsapp que enviamos bêbados: “Onde você está? Eu vou praí, hein? Olha, olha”.

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“Scyssors Dyke” pode ser considerada a canção de amor sapatão de Luz Del Fuego. Boca e olhos lascivos, roupas pretas, cerveja gelada e maconha aparentemente formam a combinação perfeita para uma bela lambida, mas lembre-se: “Fuck love”.

Pouco depois, Vanessa e Lorena se revezam entre a agressiva “Radicals” e o blues satânico da sangrenta “Manequim” para então chegarem à divertida “Kekel’s Trucker Club”—o mais próximo que eles passaram de uma balada indie-pop à la Sonic Youth. “Hey, girl/ Who you think that I am?”, questiona Bonna antes de anunciar que toda a atenção que recebe é porque dirige um caminhão e consegue mais garotas que você.

“You’re gonna love her/ You’re gonna kiss her/ You’re gonna leave her/ She’s gonna kill you”, promete a sanguinária “Undress to Kill”, uma espécie de ode às prostitutas psicopatas. Como um tiro na cabeça, a canção acaba tão rápido quanto começa, mostrando que não é preciso de muito para se passar uma mensagem dessas.

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Sim, já estamos na última música, a derradeira faixa-título, que rapidamente se revela e encerra o disco com maestria—além de, é claro, sangue, sujeira, peso, devastação e horror. “Luz Del Fuego” é a canção mais pesada não só do álbum, mas possivelmente de toda a carreira da banda. Ela começa com uma marcha diabólica meio Slayer até sofrer um abrupto desvio quando um riff zapateano-endiabrado e um fuzilamento percussivo tomam suas rédeas. Tudo isso fica ainda melhor quando entra um dos vocais mais implacáveis que a Baby Jane já produziu.

Em termos líricos, a canção se refere ao feminicídio da dançarina, naturista, atriz, escritora e feminista cachoeirense Dora Vivacqua, que ganhou notoriedade com seus espetáculos de dança no Rio de Janeiro, onde (sob o pseudônimo Luz del Fuego) se apresentava envolvida por serpentes. Defensora dos direitos das mulheres e da liberdade de expressão, combateu os preconceitos sociais durante toda a sua vida, chegando até a escrever livros e criar um partido para tentar se candidatar a deputada federal. No entanto, em 1967, quando tinha 50 anos, foi cruelmente assassinada por uma dupla de pescadores na capital carioca, onde morava.

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Dora Vivacqua, a verdadeira Luz del Fuego, em 1944 (Crédito: Wikimedia Commons).

Numa curta, porém consistente trajetória, a Whatever Happened to Baby Jane provou que não chegou até aqui por acaso e que nem pretende sair de cena tão rápido.

Ela surgiu de um apelo no Facebook (“O que me grita aos olhos é que tá na hora da cena punk feminista voltar. Alguma mina afim de fazer um som?”, publicou uma esperançosa Lorena ainda em abril de 2016); Se estabeleceu como um trio quando a baterista de primeira viagem Vanessa Labuto e a ex-baixista Ignez Capovilla aceitaram o convite; Cativou o músico e empresário Fabio Mozine logo em seus primeiros shows; Faturou uma vaga como atração de abertura na primeira edição do festival da Läjä Records; Gravou o elogiado EP Inferno de Vida em tempo recorde (“Foram quatro horas infernais! Insuportáveis”, desabafou Vanessa na época); Fez shows dentro e fora do estado; Lançou o single Dolores; Filmou um videoclipe para “Teresa”; Não titubeou com a saída de Ignez e continuou os trabalhos como um duo; Encarou o terrível inverno paulista numa exaustiva maratona de gravações; E agora finalmente colocou na praça seu primeiro full length.

Escute abaixo todos os 18 minutos de pura frenesia de Luz Del Fuego e não perca os shows que as Warebas farão no Läjä Festival Vol. 2 (no dia 15 de setembro e dessa vez como uma das headliners) e no Liverpub Vitória, com as bandas Molho Negro e Grupo Porco (no dia 14 de outubro). O CD, que de quebra virá com as canções de Inferno de Vida Dolores como bônus, será vendido a partir do dia 15 de setembro pela Läjä Records e as vendas do vinil serão anunciadas em breve. Fique ligado, porque além de tudo isso, logo mais será lançado um mini documentário de sua gravação.

Texto: João Depoli; Foto de capa: Lorena Bonna e Samuel Cruz.

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