Thiago Stein (DOZZ): “O futuro se torna um pouco imprevisível.”

Leia na íntegra o papo que tive com o Thiago Stein sobre esse período de quarentena e os seus desdobramentos atuais e futuros
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João Depoli (esquerda), Carlos Henrique e Thiago Stein (Crédito: Divulgação).
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Natural de Vitória, Thiago Stein ganhou certo destaque no cenário musical capixaba no início da década de 2010. Na época foi o vocalista da TSM (The Single Malt), com a qual lançou dois EPs antes de sua partida. Agora no comando das vozes da banda DOZZ, chegou a lançar dois singles no final do ano passado — tudo antes de ver a gravação de seu disco de estreia paralisada por conta da atual pandemia.

Confira abaixo a íntegra da conversa que tivemos e não deixe de ler sua participação ao lado de Fabio Mozine (Mukeka di Rato), Gabriela Brown, Fepaschoal, Luíza Boê e Edson Sagaz (Suspeitos na Mira) no segundo episódio da série Quarentalks.

João Depoli: Nós brasileiros acompanhamos com relativa antecedência a evolução dessa pandemia ao redor do mundo. Ainda assim, o ato de entrar em quarentena provou-se ser algo mais fácil de ser compreendido na teoria do que na prática. Você acredita que estava preparado para isso?

Thiago Stein: Não estava preparado, porém o que me tranquilizou foi a crença em que nós naturalmente nos adaptamos a situações adversas. No começo não imaginamos que duraria meses e meses, e olhe onde estamos. As coisas vão apertando e não temos uma previsão exata para acabar, principalmente quando temos muitos parentes em grupo de risco que somente poderão ter a tranquilidade restabelecida quando tiverem uma vacina. Imagine só, prevista para ano que vem…

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Como você tem lidado com o fato de que parte de suas atividades, planos e até mesmo fontes de renda foram reduzidas, adiadas ou até mesmo extintas?

Meu trabalho principal é com arquitetura junto a um sócio/amigo de 70 anos de idade que não voltará a um escritório tão cedo, logo nos livramos de nosso escritório e eu estou me acostumando com o tal “home office”. Tem seus confortos e desconfortos. Ainda em adaptação. Ainda temos trabalhos em curso que nos sustentarão por alguns meses, porém após estes, o futuro se torna um pouco imprevisível já que ainda não sabemos como serão os futuros encontros com novos clientes e como estará o mercado daqui a alguns meses. Quanto à música, que é minha amada diversão, foi atingida em um momento que a DOZZ estava começando a pôr os pés nas ruas, o que chateia muito, mas não desanima.

Desde que entramos nessa, vimos que o isolamento teve diversos reflexos nas pessoas. Enquanto uns não notaram muita diferença em seu cotidiano, alguns viram seus problemas com depressão sendo amplificados, outros passaram por crises de ansiedade e mais. Como tem sido a sua adaptação a esse período?

Considero-me uma pessoa muito ansiosa e pai de muitos frios na barriga. Como isso já faz parte desde cedo da minha vida, quando criança aprendi um santo remédio que para mim se aplicou muito bem que é escrever. Desde então sempre faço isso quando estou em momentos em que há muito medo de caminhos que desconheço, agitado por muitas funções, ou sem saber de fato o que está acontecendo e me fazendo sentir agoniado. E nesse período esta prática está sendo fundamental para mim.

“Espero que seja possível o fortalecimento de todos nós como nação.”

Enquanto alguns defendem que o isolamento deve ser absoluto, outros o enxergam como um exagero e toda essa discussão parece apenas amplificar esse período de extrema divisão social que já vivemos. Nesse contexto, o que você acha que esse momento significa para nós como sociedade?

Eu creio no isolamento e creio que essa dicotomia é reflexo da desinformação que esses tempos têm promovido nas pessoas. Descrença na ciência, a morte da verdade, tudo em prol do benefício de poucos. Penso que nada disso é de agora, mas parece que no momento está em um ápice. Penso também que talvez com tantas ações claras, expostas em redes sociais, protestos contra a vida que o diminuto “chefe de Estado” e muitos donos do “DinDin” promovem, a visão daqueles que acreditaram nessa turma por falta de informação ou ingenuidade se clareie. Talvez toda essa loucura seja fundamental para darmos dois pés para frente enquanto estamos dando um para trás — a vontade é de dizer “vários para trás”, mas aí não justifica o exemplo [risos]. Vamos ter fé!

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Thiago Stein, vocalista da banda DOZZ (Crédito: João Depoli).

Acha que é possível tirarmos algo positivo de um período como esse?

Sim, acho que é o momento para abrir os olhos da população quanto ao papel do Estado e do esforço coletivo. Espero que seja possível o fortalecimento de todos nós como nação.

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Num foco mais pessoal, o que você descobriu sobre si mesmo ou aprendeu nesse período de introspecção?

Com o isolamento, os momentos de reflexões que já existiam aumentaram, com isso respostas vão chegando mais rápido do que na correria do dia a dia. Tirando insights de caráter pessoal, sinto aumentar a cada dia o valor das pessoas, amigos e parentes que sempre foram próximos e por quem sempre tive muito apreço.

“Todo trabalho que envolva entretenimento nesse período está sendo fundamental.”

Quando se trata de compor ou trabalhar num projeto criativo, muitas pessoas naturalmente buscam um certo isolamento. Esse período tem sido favorável para você nesse sentido?

Para mim não se aplica, pois a produção na DOZZ sempre foi em conjunto. Para que eu desenvolva, é fundamental a presença, os encontros descontraídos e os ensaios. Existem muitas experimentações e descobertas nesses momentos. Faz falta. Mesmo com essas limitações nós estamos trabalhando em materiais para apresentar nesse período de quarentena. Um grava aqui, o outro grava ali, pega tudo, junta com o que temos e bora!

Como você espera que o seu trabalho possa contribuir tanto no período durante quanto no pós-quarentena?

Antes de tudo, todo trabalho que envolva entretenimento nesse período está sendo fundamental para quem está em casa e só tem este meio para se divertir e se distrair. Espero que possamos contribuir com novidades para que as pessoas tenham esse entretenimento, que nos conheçam e possamos estar juntos no período pós-pandemia em futuras apresentações tocando o bonde em frente, queimando um óleo firme. Amém!

Por fim, muito se especula sobre como será o convívio social num período pós-quarentena e os seus impactos em toda a cadeia musical. Quais são as suas expectativas para esse novo capítulo?

Esse momento nos fez olhar para uma ferramenta que já existia, mas que não havia sido explorada como está sendo agora, que são as transmissões ao vivo via redes sociais. As lives a meu ver estão se mostrando muito importantes para as apresentações de artistas que não são do mainstream, tendo não só a oportunidade de apresentar e ecoar os seus trabalhos como também de se beneficiar com o financiamento coletivo, somado a ferramentas como o PicPay, recebendo doações do público. Acredito que essa foi a grande ideia nessa pandemia e continuará daqui para a frente na promoção de todos os artistas, mas não acredito que afetará nem suplantará turnês, shows e toda reunião não virtual público/artistas. Claro que certos hábitos de higiene vão se manter como ressaca desses tempos, mesmo quando houver vacina e estiver tudo em ordem. Não é o fim de nosso contato, é só um stand by.

Texto: João Depoli | @joaodepoli.

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