Gil Mello e a Mudo: “A busca é por profundidade e intensidade e não por algo que pareça sólido e forte”

Foto de capa: Hannah Carvalho/Divulgação.
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“Já que o rock se tornou algo careta, repetitivo e nada transgressor, a psicodelia talvez tenha se encontrado em uma possibilidade mais fluida, inventiva e libertária.” É com essas palavras que o músico Gil Mello discorre acerca da vertente musical na qual se apoia seu mais novo projeto, a banda Mudo. “A inspiração para criar a Mudo nasceu mais da necessidade terapêutica da música de dar conta da existência—a minha nesse caso [risos].”

Conhecido por seu trabalho na produtora Subtrópico e por ter passado pelas bandas Sol na Garganta do Futuro, Mango e My Magical Glowing Lens, Mello fundou a Mudo em meados do ano passado. Recrutou o baixista Pedro Moscardi (TSM e MMGL) e o baterista Henrique Paoli (André Prando e Melanina MCs) e juntos o trio começou um extenso trabalho de composição em torno de uma temática específica: a saudade. O resultado foram canções que, em sua opinião, devem ser ouvidas “de olhos fechados e certamente para aproximar distâncias e afetos.”

Sua grande estreia nos palcos aconteceu na noite de inauguração do novo espaço encontrado pela equipe do Subtrópico—que se viu sem a Casa Verde quando ela foi interditada para reformas. Naquele show, Gil tocou ao lado de Moscardi numa noite que também viu a estreia do duo Hill Dreams. Apesar da ausência de grandes ensaios prévios, a apresentação da Mudo correu muito bem, evidenciando a total segurança e entrosamento de seus músicos, assim como a incrível expressividade digital e analógica de suas canções.

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Desde então, a Mudo já fez novos shows por Vitória, levando o seu trabalho a um público ainda maior. Passou pelo Grappino Rangobar, pelo espaço Guava e recentemente esteve no Stone Pub, onde tocou ao lado do rapper Fabriccio. Com novas apresentações no horizonte, o grupo também planeja fazer o lançamento de um EP com três faixas ainda neste ano.

Confira abaixo a conversa que tivemos com o vocalista e guitarrista Gil Mello sobre a gênese da Mudo, seu estilo musical, o EP de estreia, planos futuros e mais.

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Henrique Paoli (esq.), Pedro Moscardi e Gil Mello no Stone Pub (Reprodução/Instagram).

João Depoli: Acho que a primeira pergunta que qualquer um poderia fazer para alguém que tem um projeto musical que também envolve linhas vocais é: por que Mudo?

Gil Mello: Quando comecei a me concentrar na ideia de dar forma para as músicas que não cabiam nas outras bandas que participava, entendi que poderia também expressar pensamentos e sensações através dessa parte que de certa forma se ocultava. A partir das letras que estava escrevendo e da formatação de arranjos e sonoridade, entendi que esse trabalho apareceria para transparecer fragilidades ao invés de apresentar algo muito afirmativo. A busca é por profundidade e intensidade e não por algo que pareça sólido e forte. Durante o processo, a palavra Mudo ficou recorrente nos pensamentos e percebi que ela dizia muito sobre tudo isso. São possibilidades de mudanças, um canal de expressão. Difícil dar um sentido determinado, apesar de acreditar que diz muito sobre meu modo de existir no mundo.

Para quem ainda não está ambientado com a sonoridade do projeto, como você descreveria a experiência que busca transmitir com suas músicas?

O primeiro material que vamos lançar, um EP com 3 músicas, trabalha e discorre sobre um mesmo tema, a saudade. Não a saudade como um sentimento por algo que se perde ou está distante, mas a ausência enquanto manifestação dela—algo que se ganha e lhe é próprio. Nas músicas, representamos esses pensamentos de modo sutil e nada agressivo, daí os beats são mais lentos, os acordes mais longos e flutuantes, assim como as vozes. Talvez seja melhor pra se ouvir de olhos fechados e certamente para aproximar distâncias e afetos. As músicas que estão fora desse primeiro EP, por exemplo, já estão sugerindo outras possibilidades, o que consideramos um processo interessante, porque expande as formas de expressarmos mais ideias e sensações.

 

“Compor partindo de algo mais
próprio num processo solitário
foi o meio para compreender
a mudança que queria passar.”

 

A psicodelia é um gênero que tem voltado com força aos holofotes nos últimos anos. O que você diria que ela tem de tão atraente?

Bom, nem saberia apontar exatamente o que é ou não é propriamente psicodélico, apesar de identificar elementos em comum entre várias galeras que estão por aí mandando super bem e são de alguma forma entendidas como psicodélicas. A liberdade de poder partir de processos híbridos de composição, misturar elementos, buscar timbres e mixagens diferentes me parece algo que uniu e deu identidade para tudo isso. Quantas dessas bandas não gravaram seus discos em casa ou num estúdio pequeno com produção própria e tudo mais? Já que o rock se tornou algo careta, repetitivo e nada transgressor, a psicodelia talvez tenha se encontrado em uma possibilidade mais fluida, inventiva e libertária.

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Eu estive presente no show de estreia da Mudo no Subtrópico, no início de Maio, e o que me chamou atenção foi a mescla entre a instrumentação orgânica e o eletrônico da bateria e sintetizadores. No que você se inspirou para criar este projeto e fazer esse casamento dar certo?

A inspiração para criar a Mudo nasceu mais da necessidade terapêutica da música de dar conta da existência—a minha nesse caso [risos]. Desde o começo do processo já fui buscando esses elementos, até porque queria que tivesse uma fluidez de formatos. Quando tocamos em duo, usamos drum machine; quando tocamos em trio, usamos drum machine e bateria acústica. A ideia também era de não usar computador e programações, por isso juntamos guita, baixo, synths, drum machine, bateria acústica e vozes para criarmos a paisagem sonora que desejamos. Já tem um tempo que sou próximo dessa mistura de elementos. No Sol na Garganta do Futuro, no My Magical Glowing Lens, entre outros trabalhos, pude experienciar e contribuir com vários processos que perpassavam também elementos eletrônicos. Na Mudo, continuei mergulhando nessas águas que há muito me apetecia.

E como funcionou a gênese dessas canções?

Depois de três anos intensos na Casa Verde, 2017 foi um período de mudanças significativas. Uma delas foi ressignificar a saudade que tinha de pessoas queridas. Compor partindo de algo mais próprio num processo solitário foi o meio para compreender a mudança que queria passar. Daí fui criando tudo: riffs, melodias, arranjos, beats, letras, testando mixagens—não porque queria fazer sozinho, mas era necessário naquele momento. Continuei desdobrando as músicas quando achei que estavam fazendo algum sentido [risos]. O Pedro Moscardi, parceiro de longa data e infinitas gigs, já estava no rolê comigo e depois convidei o Henrique Paoli, figura com a maior gentileza musical que conheço, para gravar o que veio a ser o primeiro EP da Mudo.

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Em seus shows, você já se apresentou em vários formatos. Em termos de formação, você diria que a Mudo ainda está em evolução/experimentação ou na sua cabeça já existe um caminho definido?

Desde o princípio queria que fosse um trio, mas que pudesse ser resolvido em dois. Em última instância, poderia também me apresentar sozinho—não por querer, mas por julgar mais importante que a coisa toda nunca pare do que só se apresentar na situação mais favorável. O barato é que essas três possibilidades de formação criam outras possibilidades de arranjos, shows diferentes uns dos outros, modos diferentes de trabalhar o mesmo instrumento. Acredito que essa maleabilidade enriquece as músicas e a gente acaba ganhando mais liberdade para experimentar. Certamente tem um caminho em todas as músicas ou no meu modo de compor que indicam um tipo de sonoridade e escolhas, o que não impede em absolutamente nada todo dia aprender e se desprender mais um pouquinho.

Você tem postado na conta do grupo no Instagram vários trechos das gravações que fizeram. Existe algum plano de fazer um lançamento ainda em 2018?

Existe sim. O EP que gravamos no primeiro semestre está quase pronto. Demorou um pouco, porque grande parte do processo estou fazendo sozinho. São 3 músicas meio grandes, está dando 17 minutos, [sendo] duas em português e uma em inglês. Uma delas tem participação do Gabriel Ventura (Ventre, Posada e o Clã) dividindo as (muitas) guitarras comigo. Numa outra música, eu e a Kathe (Cora e Katze) dividimos os vocais. O processo está sendo massa demais. Além deles, o Henrique Paoli gravou as baterias e o Pedro Moscardi as linhas de baixo, synths e vozes. Quase não acredito ter recebido contribuições de pessoas que gosto muito e poder me conectar com elas e encurtar distâncias através da música. Vamos lançar o EP em Agosto, uma session em Setembro e estou programando uma tour pra Outubro e Novembro para dar uma rodada e engrossar esse caldo. Logo menos vou começar as prés de outras músicas para o próximo trabalho que não vai tardar para sair.

Texto: João Depoli; Foto de capa: Hannah Carvalho/Divulgação.

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