Rodrigo Lima (Dead Fish): “A capixabaland tipo Hamburgo? Tipo Cuba? Ia ser lindo.”

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Foto de capa: Reprodução/YouTube.
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Eu estive no Cine Jardins no último dia 27 de Novembro para assistir à exibição da sessão de estreia do documentário de vinte e cinco anos da banda Dead Fish. Intitulado Asfalto, o registro também foi projetado simultaneamente em outras três capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Como a nossa sessão começou quinze minutos antes das demais, pudemos desfrutar momentaneamente de um bobo porém doce gostinho de exclusividade.

Sob a direção de Marcos Okura e Caio Rodriguez, o documentário ofereceu um incrível retrato da tempestuosa carreira da banda entre os anos de 1991 e 2016. Fez diversas revelações, mostrou um pouco dos bastidores de ocasiões importantes e rendeu boas risadas com o entusiasmo e a espontaneidade dos integrantes. Tudo isso foi relatado, mas sem ocultar as dificuldades enfrentadas ao longo de duas décadas e meia na estrada: evidenciou os problemas e atritos profissionais, escancarou vários conflitos e revoltas internas e deliberadamente expôs sérios problemas de saúde de alguns integrantes.

De uma forma violenta e autêntica (como qualquer show do Dead Fish), Asfalto não decepcionou em exibir, em seus 106 minutos, todos os incontestáveis percalços que definiram o peixe morto e o fizeram chegar até aqui. O documentário conseguiu nos deixar ainda mais próximos e mais cúmplices desta banda e deste grupo de pessoas que acompanhamos por tantos anos.

Leia também: “É muito simples, mas é parte da história de todos nós.” A estreia de Asfalto.

Aproveitando a passagem de Rodrigo Lima (vocalista) pela cidade, eu consegui uma entrevista antes que ele voltasse à São Paulo para retomar as atividades da banda. Conversamos sobre Asfalto, sua produção, a repercussão do documentário e também um pouco sobre o que o Espírito Santo ainda significa para o músico.

João Depoli: A estreia do documentário Asfalto aconteceu em uma segunda-feira e, para os termos gerais de Vitória, isso é sinônimo de ficar em casa. Mesmo assim, o Cine Jardins estava lotado! Eu estive lá e a sensação foi como se estivéssemos esperando para ver um show. As pessoas sussurravam ansiosamente: “vamos ficar sentados ou vamos ver o filme de pé?”, “vai rolar um mosh lá dentro?”, “será que a banda vai aparecer por trás da tela no final?” Qual foi a sua sensação ao assistir o documentário pela primeira vez e ver um jovem Rodrigo cheio de sonhos e determinação percorrendo o Brasil com sua banda?

Rodrigo Lima: No começo, quando o Caio Rodriguez e o Okura, os diretores, entraram em contato, a minha intenção era ter um registro da banda que pudesse ser abrangente. Durante os dois anos de pesquisa, filmagem e produção, fui percebendo que esse será, pelo menos pra mim, um registro importante de uma época num dado local que não é o centro do mundo e isso é o mais legal. Saiu um registro bem honesto da nossa realidade de 91 até hoje. Acho que escrevemos mais uma página da história da música brazuca, do nosso jeito, e o mais relevante está aí, para as próximas gerações verem e tentarem entender.

Ao final do documentário, é impossível não se pegar num exercício de nostalgia e eu acredito que isso deva ser especialmente mais latente para você. Existe algo que você sinta falta daquela época e que hoje você não tem mais?

Não sou uma pessoa nostálgica, mas é legal repassar tudo aquilo me vendo “de fora” e ouvir os depoimentos dos integrantes antigos que não via faziam nove, dez anos. Foi um exercício legal ver as opiniões muitos anos passados… Muita coisa ficou de fora — eu pessoalmente faria um documentário de seis horas [risos], mas isto é completamente inviável. Eu sinto falta de estar perto de todos, de levar 10 minutos de bicicleta da casa de um amigo ou de qualquer lugar. Lembro que reclamava de sempre ver as mesmas pessoas, do provincianismo local — não que eu sinta falta dessas duas últimas coisas, mas quando a gente está perto de menos pessoas, o diálogo tem que surgir. A troca de ideias pode ser menos apressada. Não sei, acho que sinto falta disso, das coisas serem menos impessoais.

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E arrependimentos? Existem alguns?

Me arrependo de muitas coisas, não seria nada humano dizer que não. Ter colocado a banda acima de todos os indivíduos envolvidos foi muito positivo para a instituição Dead Fish, mas muitas pessoas saíram amassadas, machucadas. Eu mesmo várias vezes me anulei momentaneamente em nome da banda, em nome do trampo. Foi o que manteve a banda de pé até aqui, acredito, mas eu faria algumas coisas diferentes — mas não tudo, porque se fosse fazer coisas diferentes demais, talvez a banda tivesse acabado vinte vezes em vinte anos.

O Dead Fish não é uma banda alheia a lançamentos visuais: vocês têm três DVDs, embora todos sejam de performances ao vivo. De onde surgiu a ideia de desta vez fazer um documentário?

Ao vivo é onde somos melhores, acredito. Talvez por isso tantos registros ao vivo. O documentário surgiu da cabeça de um grande amigo e fã da banda, o Caio Rodriguez e sua ex-mulher, que também curte a banda. Um dia eles me pegaram em casa e sentamos para conversar. Eu disse que eles podiam fazer, mas que fosse focado nos álbuns e pronto. Dois anos depois temos um documentário. Bastou alguém se responsabilizar em produzir. Não tinha rolado o convite antes de 2014.

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Em 2016, a banda britânica Oasis lançou o documentário Supersonic, que retratou os 6 primeiros anos da banda em 122 minutos. Asfalto, por sua vez, encaixou incríveis 25 anos em apenas 106 minutos! Embora o resultado tenha sido impressionante, suponho que vocês tenham coletado material o suficiente para fazer uns dez filmes.

Olha, só o trampo de coletar material levou quase meio ano, depois colher as entrevistas, depois arrumar, sei lá, 24 horas de material bruto e editar. Como disse, muita coisa ficou de fora, muita mesmo. Acho que vamos fazer como o Ratos de Porão e vamos disponibilizar no DVD umas 4 horas de extras e acho que deva sobrar material ainda.

Tiveram aqueles momentos em que vocês pensaram em arquivar tudo e desistir do projeto?

Não, nunca. Começou termina, né? É assim que tem que ser.

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A banda participou do processo de edição e da escolha do roteiro final?

Eu participei de pequenos eventos na edição, achar nomes, lembrar de anos, essas coisas. O resto, o grosso, ficou com a equipe.

Quando vocês lançaram Um Homem Só (2006), eu lembro que você foi muito firme em dizer que na época não estava muito satisfeito com o resultado. Este e outros exemplos mostram que você é uma pessoa muito exigente quanto à qualidade de tudo que leva o nome da sua banda. Quanto ao documentário, a resposta do público foi extremamente positiva, mas e a sua opinião? O registro superou suas expectativas?

Talvez eu seja apenas chato mesmo, se algo não é legal pra mim, não me toca, dou minha opinião, mas não sou super exigente não. Um Homem Só foi apenas um álbum da banda que não gostei e disse publicamente. O documentário e DVD de 25 anos foram gratas surpresas pra mim, no sentido positivo da palavra. Acho que temos registros históricos e muito bem feitos da banda.

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Foto: Reprodução/YouTube.

Um dos segmentos mais chocantes e sinceros de Asfalto é o depoimento do Alyand sobre sua luta contra a depressão. Vocês dois são os membros mais antigos da banda, então creio que a amizade de vocês seja um dos pilares que ainda mantêm o Dead Fish na ativa. Você aparenta ser uma pessoa bem prática e objetiva, então como você se sente em estar ao lado de um grande amigo cuja batalha não é algo tão palpável e de fácil remediação?

Pois é, eu fui contra ele se expor assim a público — ser uma pessoa pública tem um lado cruel. Se você se mostra demais, se torna muito vulnerável e tem fã que não ama, odeia né? É fato, e ele é super reservado. O Aly é um sujeito muito corajoso, filho da puta de forte — às vezes é inacreditável como ele consegue. É muito generoso da parte dele abrir pra todos o seu grave problema de saúde. Acho que ele viu a oportunidade de poder ajudar outras pessoas que vivenciam isso falando da doença. Acredito que tenha me tornado prático e mais objetivo com o tempo trampando com a banda, mas só de estar numa banda de punk/hc por todo esse tempo, isso já me faz um sonhador. Eu fui entendendo a condição do cara aos poucos, acho que muitas vezes fui duro com ele, talvez até insensível em muitos momentos, mas em momento nenhum passou pela minha cabeça deixá-lo pelo caminho. Como você diz, ele é um pilar (e dos fortes) da banda. Sem o cara que manteve a banda unida durante mais de dez anos, não faz sentido estar ali. Quando a banda precisava dele, ele estava ali em todos os momentos. Perdeu seis empregos em Vitória pra estar com um bando de vagabundo andando por aí dentro de uma van. O mínimo que posso fazer é estar perto, pedir pra ele se tratar, ouvi-lo e dar um suporte, né?

Muita gente daqui veio me perguntar quando eles terão outra chance de assistir ao documentário. Vocês pretendem fazer novas sessões aqui no Espírito Santo? E em DVD? Quando o documentário será disponibilizado?

A gente quer tentar de novo o Cine Jardins e outros pelo Espírito Santo. O Kinorama já tem até uma proposta pra gente. O DVD deve sair depois de Fevereiro, com os extras.

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Foto: Divulgação/Instagram.
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Como eu disse antes, a atmosfera durante a exibição de Asfalto no Cine Jardins era a mesma de um show e isso foi tão intenso que o Motor Rockers até anunciou uma noite com a primeira formação do Dead Fish para essa quarta (10/01). De quem foi a ideia dessa manobra inédita? Quais são as suas expectativas não só com o show, mas em novamente tocar com toda essa galera das antigas?

Queria ter podido ver isso aqui no Espírito Santo, mas estava na estrada voltando de um show. A ideia de reunir os membros de 91 a 95 foi do Marcelo Buteri. Ele fez um grupo de Whatsapp com os ex-integrantes e lançou a proposta. O Tiago e o Gustavo são donos do pub e agilizaram rápido uma data — aproveitando a vinda do Marcel da Alemanha pro fim do ano. Tudo muito rápido. Agora estamos ensaiando para a parada rolar. Eu estou feliz, vai ser no mínimo divertido ensaiar e tocar de novo com eles. Tomara que seja uma noite histórica.

Vocês precisarão tocar em cima da banca de revisas em frente ao Motor Rockers para atender à maré de fãs e de curiosos que tomarão a Praia do Canto nesse dia.

Tomara que não. O bairro continua careta boboca classe média reaça. Tocar na rua aqui é um risco pros cidadãos de bem e esses caras são um perigo. Vai ser legal lá dentro, show pequeno, mais tosco, mais quente [risos], muito mais quente.

Durante os shows do Dead Fish você ainda anuncia que vocês são uma banda de Vitória. Além do óbvio, o que significa para você repetir isso em todas as suas apresentações?

Sim, é de onde venho, minhas raízes. É importante pra mim dizer. Não existe um motivo consciente pra isso, apenas digo. É como se fosse começar a contar uma história, tipo um “era uma vez”.

Para a família capixaba, abandonar tudo para se aventurar numa atividade artística, sobretudo numa banda de rock nada convencional, é algo inconcebível. Você viveu tempos de dificuldades familiares quando entregou seu diploma de Direito nas mãos de sua mãe e seguiu estrada com o Dead Fish?

É, eu não sei se fui perseverante ou sortudo ou folgado — acho que um pouco de todos esses elementos. Uma mistura de skate com mãe artista e um amor enorme por estar na estrada e envolvido com o DIY. Não existe tradicional família de porra nenhuma que resista, mas lembre-se, sempre existe um preço a ser pago.

Como capixaba, você certamente deve entender isso muito bem: muitos de nós têm a falsa concepção de que tudo que é bom precisa vir de fora daqui — seja do Rio de Janeiro, de São Paulo, do exterior, enfim. Nesta premissa, o que significa para você ter saído do Espírito Santo agarrado à música e agora estar, contra todas as expectativas, no grupo que detém o título de maior banda de hardcore do país?

Eu tinha esse sentimento quando era moleque, não julgo quem tenha ainda. Também ainda moleque e na banda, entendi que se eu não fizesse nada, ia afundar embaixo de uma montanha de pó de minério se ficasse parado. Naquela época não parecia simples, mas olhando daqui de cima dos quarenta e poucos — e parece clichê —, o mais legal foi o caminho. Aprender, sair da zona de conforto ou desconforto, não sei… É aquele livro do Hesse, o Sidarta. A gente só muda algo escolhendo um caminho e indo, não tem certo e errado. Eu me sinto mesmo sendo membro da melhor banda do mundo, mas quando isso é afirmado de fora pra dentro acho um exagero — vira uma cobrança, uma marca meio boba, não sei se é relevante. E mais, você disse melhor do Brasil, né? [risos]. Enfim, cada um acredita no que quer. Se eu pudesse viver de música, viveria no Espírito Santo tranquilamente — em Manguinhos Beach mais especificamente, mas ai seria outro Estado, sem coronéis de mídia, política ou judiciário, imagina? A capixabaland tipo Hamburgo? Tipo Cuba? [risos] Ia ser lindo.

Mesmo que você tenha criado raízes em São Paulo, você ainda sente falta daqui? Planeja um dia retornar para cá, digamos que, para a sua “aposentadoria”?

Estou de saco cheio de São Paulo e não sinto falta daqui ainda. Estou num limbo nesse exato momento, mas amo as duas cidades de forma bem diferente. Sou grato a ambas de forma diferente. Aposentar? Você disse isso? Que otimista! Se algum dia esse mundo liberal de merda me der a oportunidade de me aposentar de quatro empregos que eu tenha pra pagar as contas, como te disse, quero um canto em Manguinhos.

Texto: João Depoli; Foto de capa: Reprodução/YouTube.

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