Guilherme Guio e o retorno do Road To Cydonia: “Mistura de paixão e ossos do ofício”

Entrevistamos o publicitário Guilherme Guio sobre a volta do Road To Cydonia, site opinativo voltado à música independente nacional

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Foto de capa: Divulgação.
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“Ae criançada, esse aqui é o site que eu, Marcos Bidim Piê, Nelson Martinelli Filho e Carlos Dalla Bernardina Junior estamos montando. Foi feito com muito amor, cinismo e ódio no coração. Aproveitem,” dizia a mensagem publicada pelo jovem publicitário Guilherme Guio sobre o Road To Cydonia, em 2013.

Lançado oficialmente em Abril daquele ano, o site é uma plataforma que gira em torno de recomendações musicais de caráter opinativo sobre artistas e bandas do universo independente brasileiro. Também conhecido como Cydonia, ou simplesmente RTC, o portal reuniu resenhas de discos, entrevistas, matérias especiais sobre o mercado musical, dicas de artistas convidados e diversos outros artigos até o final de 2016, quando, apesar da boa recepção que o circundava, teve que interromper suas atividades.

Felizmente, o site está de volta ao ar e completamente repaginado após longos 18 meses estacionado em hiato — sim, não são apenas as bandas que podem usar essa expressão. “Os leitores já familiarizados podem esperar uma versão um pouco mais sofisticada em termos de estrutura e conteúdo. Para aqueles que ainda não conhecem, acho que podem esperar um site bem direcionado para recomendações e perspectivas sobre novas sonoridades e o mundo que gira ao entorno disso,” garante seu editor e redator principal Guilherme Guio, cuja história é tão produtiva quanto à do RTC.

Formado em Publicidade pela Faesa, iniciou uma pós-graduação em Comunicação Corporativa na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e logo engatou num MBA em Gestão Estratégica de Mercado, subespecializando-se em Inteligência Mercadológica. Desde o ano em que o Cydonia foi a ar, Guio trabalha com Marketing Cultural, sendo um dos sócios da produtora cultural Serena, junto de Murilo Abreu e Ricardo Martins.

Nossas trajetórias se cruzaram quando eu tive o prazer de conhecê-lo no Liverpub Vitória (of all places), em Novembro do ano passado, quando a banda Whatever Happened to Baby Jane gravava o videoclipe da música “Teresa“. Na ocasião, o Inferno Santo ainda estava engatinhando e o Road To Cydonia hibernava em seu hiato. Ainda assim, a afinidade pela música e pela escrita falou mais alto e hoje estou aqui, publicando essa entrevista que fiz com o próprio sobre o retorno do Cydonia… Divirtam-se!

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Guilherme Guio, editor e redator principal do RTC (Foto: acervo pessoal).

Para quem ainda não conhece o seu trabalho, o que é o Road To Cydonia?

O Road to Cydonia é um site focado na recomendação de bandas e projetos nacionais vindos do circuito independente, assim como na discussão de problemáticas relativas a esse universo. A ideia pro site veio da vontade de escrever sobre música e montar algo diferente da maioria dos sites do gênero, também mirando num universo muito rico e razoavelmente desconhecido pelo público. Diante disso, acabamos restringindo o escopo apenas ao que efetivamente gostaríamos de fazer, nos baseamos na ideia de que o site seria estritamente opinativo e começamos a nos impor algumas regras que acabaram caracterizando o Cydonia como ele é até hoje: não trabalhamos com notícias nem notas, não falamos sobre o que não é do nosso interesse e produzimos seguindo a ideia de que todo o conteúdo disponibilizado deve ter um caráter atemporal.

A primeira versão do site foi originalmente ao ar entre Abril de 2013 e Novembro de 2016. Depois de um hiato de mais de ano, foi decidido que era hora de reorganizar todo o conteúdo pré-existente e criar uma nova estrutura. Daí, no final do ano passado veio a ideia de fazer um reboot e desenvolver essa nova versão com a reorganização de todo o conteúdo previamente lançado. Incubamos um pouco a ideia, nos reorganizamos e foi daí que a Serena também se envolveu. Contratamos o Charles Peixoto (CPID) para nos ajudar com a arquitetura e a implementação da nova versão e retomamos os trabalhos.

Na sua opinião, quais foram as matérias mais interessantes já publicadas por lá? E quais foram aquelas que geraram maior repercussão?

Apesar de achar difícil responder a primeira parte dessa pergunta, acredito que a entrevista com o Muddy Brothers (realizada no início de 2014) foi particularmente interessante pelo fato de que a conversa foi originalmente gravada em áudio para ser transcrita depois e acabou que o papo rendeu muito mais que o imaginado. Os membros da banda puderam se soltar e falar sobre diversos assuntos, desde seu processo criativo e sua visão geral sobre música até os perrengues do rolê independente. O papo todo foi bem didático e revelador. No fim das contas, menos de um quinto do que foi discutido foi transcrito do áudio original (que tinha mais de duas horas de duração), o que também levou a um processo de edição bem interessante.

Além dessa matéria, a Bea Rodrigues (ex-vocalista e baixista do Mavka) fez um texto muito bom falando sobre como o formato de EPs tem suplantado álbuns no mercado musical contemporâneo; a Nina Uyttenhove fez uma matéria belíssima sobre a Camarilo (que eu não conhecia na época); e o Carlos Dalla tinha uma coluna brilhante chamada Quase Samba, na qual discutia diferentes temáticas musicais a partir de playlists contextualizadas. Também fizemos especiais de Dicas dos Convidados com a Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens) e com o André Prando, que foram bem interessantes justamente por não sabermos o que eles recomendariam. Tem várias, mas essas são as que ficaram na minha memória.

Em termos de repercussão, a 5 Bandas Brazucas #5 deu um boom de visibilidade pro site, assim como as resenhas dos discos Veneza (Solana), #3 (Big Bat Blues Band) e Júpiter (SILVA). Não saberia pontuar outras além dessas, porque, dada a própria configuração do site, nossos conteúdos giravam de forma bem vagarosa, gradativamente alcançando novos leitores. Mas esses casos em particular definitivamente marcaram.

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O que os seus leitores podem esperar deste trabalho? Você pretende seguir o mesmo formato ou resolveu reformular o site nesse tempo em que esteve afastado?

Acredito que os leitores já familiarizados com o site podem esperar uma versão um pouco mais sofisticada em termos de estrutura e conteúdo. Para aqueles que ainda não conhecem, acho que podem esperar um site bem direcionado para recomendações e perspectivas sobre novas sonoridades e o mundo que gira ao entorno disso. No mais, o novo site segue a mesma premissa básica e a mesma linha editorial. O que muda nesse primeiro momento é o layout e a própria atualização de vários conteúdos que existiam previamente, mas também estamos trabalhando em algumas mudanças para o futuro na ideia de abranger um pouco o escopo de atividades.

Embora o site abranja a música independente nacional em geral, a atenção e o zelo voltados às bandas do Espírito Santo são pontos inquestionáveis. Qual a sua relação com a música produzida por aqui?

Acho que eu posso dizer que minha relação é de atenção e consumo constante, tanto por gostar imensamente do que é produzido aqui quanto pelo fato de que isso diz respeito ao meu universo profissional. Meu ofício se relaciona diretamente com este tipo de produção, a empresa na qual trabalho atua na área, meus colegas de trabalho vivem nesse mundo há muito tempo, tenho amigos que são músicos neste circuito e posso dizer que o RTC começou, em boa parte, justamente por causa da minha admiração por algumas bandas capixabas. É uma mistura de paixão e ossos do ofício.

E de que forma você acha que o Road To Cydonia contribui com isso?

Idealmente, penso que o Cydonia pode contribuir aumentando a visibilidade da produção local (mesmo que seja numa escala ínfima) e incentivando os leitores (sejam capixabas ou de outros estados) e os próprios músicos locais a escutar e disseminar o que é feito no Espírito Santo. Além disso, acho que o site pode ser um espaço para se levantar questões pertinentes de forma construtiva e fomentar novas perspectivas em torno deste universo, tanto para os profissionais da área quanto para o próprio público. Se conseguirmos contribuir minimamente em algum destes pontos, ficarei extremamente feliz.

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Foto: Divulgação.

Você é uma pessoa que está diariamente em contato com os artistas do estado e quem te conhece sabe que você tem convicções e opiniões muito fortes — do contrário você não teria um site majoritariamente opinativo. Diante disso, qual você acredita que é o maior erro cometido pelos artistas do Espírito Santo?

Não se planejar e não enxergar o próprio trabalho de forma sistêmica e direcionada para um mercado consumidor. Quando discutimos a ideia de se trabalhar profissionalmente com Arte, é necessário enxergar que certas ideias e noções (como Posicionamento, Identidade de Marca, Público-Alvo e Proposta de Valor) têm que estar atreladas ao processo e que, para tal projeto artístico se mostrar frutífero, outros trabalhos periféricos à Arte em si também têm que ser desenvolvidos (como Produção, Divulgação, Distribuição, Agenciamento, etc.). E o fato é que, por mais que todas essas frentes de trabalho não sejam necessariamente da alçada do artista ou grupo titular do projeto, é necessário que este(s) tenha(m) conhecimento acerca de todos estes processos.

Idealmente, todo artista teria uma equipe para lhe auxiliar nestes processos. Como frequentemente não é o caso, o que resta é a ideia de que o próprio artista tenha pelo menos uma ideia geral deste universo mercadológico no qual almeja adentrar. Nesse caso, digo recorrentemente que a ideia de um artista entender de Planejamento e Mercado é semelhante à de um cidadão entender de mecânica automobilística: tais conhecimentos permitem que o agente em questão consiga resolver problemas mais simples quando necessário e entenda claramente com que está lidando caso precise fazer um investimento em mão-de-obra especializada.

Agora o que acaba ocorrendo recorrentemente no mercado musical nacional é que vários projetos extremamente promissores acabam atingindo o ponto da exaustão ou da estagnação por não terem um planejamento para lidar com o perrengue que permeia o trampo independente no longo prazo e pela falta de perspectiva sustentável diante da ausência de um mercado devidamente estruturado. O artista (ou grupo) dá os primeiros passos em sua carreira, consegue produzir o trabalho e começar a estabelecer um público, mas não consegue dar continuidade ao trabalho depois de um tempo e, eventualmente, o projeto se dissolve ou se torna um hobby. E essa problemática só tem se mostrado mais e mais recorrente com o passar do tempo.

Em contrapartida, qual é a maior vantagem em ser um artista e viver de música por aqui?

Acredito que o maior benefício do Espírito Santo enquanto circuito musical seja a mistura de praticidade e diversidade que propicia. Além do estado ser geograficamente diminuto e tudo ser relativamente próximo, o fato é que temos uma quantidade admirável de agentes culturais, artistas e grupos com propostas das mais variadas que coexistem nos mesmos espaços e frequentemente se conhecem. Logisticamente falando, isso implica num potencial de crescimento titânico, pois é um cenário muito rico e versátil que fomenta o diálogo e a interação com tais agentes de forma muito facilitada. As possibilidades de troca e realização são virtualmente incalculáveis dentro dessa lógica e essa proximidade possibilita não apenas o estreitamente dos laços da própria cadeia da música como também aproxima tais elos de seus respectivos públicos.

No entanto, deve-se observar que ainda carecemos de uma estruturação sistêmica que permeie todos os níveis, indo da classe artística ao público final, passando por donos de venues, estúdios de gravação e ensaio, lojas de instrumentos, veículos de comunicação, entidades públicas e todo tipo de pilar que interfira nessa construção. Ainda falta enxergar o que temos aqui como um mercado dotado de valor simbólico e monetário. Mas, no momento em que esses lapsos começarem a ser preenchidos, acredito piamente que o cenário musical capixaba possa vir a se tornar tão forte quanto aqueles vistos em Pernambuco, Rio Grande do Norte e Goiás e que Vitória pode se tornar um polo tão produtivo quanto Recife, Natal ou Porto Alegre. Acho que vale sempre a pena torcer por isso.

Para finalizarmos, seguindo a tradição do Road To Cydonia, quais são os cinco artistas ou bandas da nossa terra que têm um lugar especial em seus ouvidos e coração?

Talvez essa seja a única resposta curta que darei: Elton Pinheiro (esse cara é brilhante), ÓCIO, André Prando, Fernando Zorzal (contando com o Transe) e Camarilo.

Texto: João Depoli; Foto de capa: Divulgação.

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